segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Crônicas de Dr. Juarez Moraes de Avelar


















Minha decisão de ser Médico

Dr. Juarez Moraes de Avelar –  ALAMI -
- Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores –

A Medicina sempre foi minha vocação. Trago comigo a certeza de que desgraçadamente foi a tragédia que detonou minha consciência em relação a ela. Tanto isso é verdade que, depois da imagem de minha mãe grávida, a segunda impressão profunda de visão do mundo que me vem à mente é a de minha escolha profissional.
Nós morávamos em Capinópolis, e certo dia na ausência de papai que estava em viagem de negócios, quando tudo transcorria bem em nossa família até que a tarde ficamos assustados com os gritos de Jarbas, um de meus irmãos. Ao vê-lo correndo ao nosso encontro, ficamos chocados e desesperados: ele gritava e com todo o corpo em chamas. Parecia uma tocha humana vindo ao nosso encontro. Mamãe, ainda que assustada com o quadro teve um reflexo de importância fundamental para apagar o fogo: retirou rapidamente a toalha branca que cobria a mesa da sala de jantar, bordada à mão por nós, e abafou o fogo abraçando-o. Havia uma jarra d'água sobre a toalha de mesa que, naquele rápido e desesperado gesto caiu e molhou quase toda a toalha. Assim, ela abafou o fogo, e ao mesmo tempo, resfriou as regiões gravemente atingidas pelas chamas. Tal acidente resultou em terríveis queimaduras nos ombros e nas costas de Jarbas que, retorcendo-se de dor, deixava-nos ainda mais preocupados. Experimentada na arte de enfrentar momentos difíceis, mamãe superou o choque inicial e, num átimo, ordenou:
- Jomázio e Juarez, corram à casa de tio Augusto e peçam-lhe ajuda. Os cuidados e tratamentos já aplicados, tenho certeza que não são suficientes.
Tio Augusto era irmão de minha querida e saudosa avó Olímpia, mãe de papai. Não era médico e nem mesmo tinha diploma de farmacêutico, mas a vida ensinou-lhe a portar-se em qualquer emergência, dada a sua excelente capacidade de raciocínio rápido e intuição clínica, fosse qual fosse a circunstância. Capaz de tratar e curar muitos males, inclusive aquele que afligia fisicamente Jarbas, e a todos nós sentimentalmente.
Sem perder tempo, saímos em disparada, pelas ruas empoeiradas de Capinópolis. Era curto o percurso entre a nossa casa e a de tio Augusto, mas durante aquele tempo, tomado de emoção pelo sofrimento de nosso irmão e certamente impulsionado pelo doloroso quadro que subitamente chocava a todos nós, retendo as lágrimas e com o sentimento de compaixão humana à flor da pele, decidi que tinha uma missão a cumprir e de modo peremptório, disse a meu irmão:
Jomázio, eu vou ser médico!
Meu irmão mais velho olhou-me intrigado e, ao mesmo tempo, não ocultou certo grau de incredulidade. Talvez pelo chocante e dramático momento de nossa família ele não refletiu suficientemente sobre minha manifestação. Não sou psicólogo, entretanto acredito que naquele momento, intimamente, ele deveria questionar algo como: “Até que ponto um moleque de 4 anos de idade pode saber o que quer fazer na vida?!?!?!”
Ao mesmo tempo pensava que ele estivesse considerando-me apenas um pretensioso. Antes que ele falasse alguma coisa, como se estivesse lendo seus pensamentos, fui incisivo e reforcei o que havia dito:
- Vou ser médico sim, Jomázio! Quero prestar socorro rápido às pessoas de nossa família. A gente nunca sabe quando uma doença ou acidente acomete nossos familiares!!!.
Após aquele monólogo, chegamos a casa do tio Augusto, que como sempre, estava sentado num longo banco de madeira, situado na varanda lateral. Era um homem alto, forte, austero, sisudo, de poucas palavras, com seus óculos de lentes grossas para compensar a miopia. Nossa chegada naquele momento em que o sol já se punha no horizonte descrevendo um enorme arco iris com os multiplos semicírculos no céu, não lhe surpreendeu, embora não era de praxe irmos à sua residência àquela hora. Percebi que ele nem nos olhou e perguntou com poucas palavras:
- O que vocês fazem aqui a esta hora, meninos?
Conclui que nossa presença não lhe causava desconforto, nem tão pouco muito interesse. Jomázio tomou a iniciativa de responder a pergunta, dizendo sucintamente:
- Tio Augusto, a mamãe pede para o senhor ir lá em casa para ver o Jarbas.
Antes de Jomázio completar a solicitação de mamãe ele já reagiu como lhe era característico, porém sem rancor ou mau humor:
- Porque sua mãe não traz o menino aqui? A distância daqui lá é a mesma de lá até aqui.
Aquelas palavras não nos chocaram, porque assim era seu jeito de ser. Se nós não o conhecêssemos suficientemente poderíamos pensar que fosse expressão de irritação. Realmente Jomázio e eu estavamos acostumados com suas reações porque lhe prestavamos serviços diariamente em casa e na sua farmácia de manipulação na lavagem dos vidros para colocar as drogas que ele mesmo preparava com folhas e raízes de ervas medicinais. Tio Augusto continuava estático, sem nos olhar, quando o Jomázio concluiu:
- O Jarbas sofreu uma grave queimadura, tio Augusto. Mamãe já aplicou alguns remédios, mas ela está muito preocupada com a vida dele!!! Ela pede para o senhor ir pessoalmente à nossa casa para prestar atendimento ao nosso irmão.
Tio Augusto ao ouvir nossas palavras entrecortadas de emoção não hesitou em nos acompanhar até nossa casa para ver o Jarbas e prescrever adequados medicamentos que aliviaram as fortes dores. Em seguida apresentou bem orientado tratamento durante vários dias que, além de curar as graves feridas da pele não deixou seqüela daquela grave e complexa queimadura.
Com a candura e ingenuidade própria de uma criança eu estava certo. Anos mais tarde, já formado em Medicina, tive e tenho várias oportunidades de tratar muitos familiares ou, quando não me sinto habilitado, encaminhei-os aos cuidados de competentes especialistas de outras áreas. Como médico e filho acompanhei meus pais para tratamento de várias enfermidades que os acometeram ao longo da vida. Com muita dor fui companheiro de ambos até os últimos momentos de suas vidas. Meu saudoso pai teve o final de vida antecipado pelas conseqüências do terrível vício de tabagismo. Já minha saudosa mãe faleceu em decorrência da senilidade com falência de múltiplos órgãos. Hoje, passados sete décadas daquele doloroso episódio ocorrido com meu irmão, recordo com alegria, emoção e ao mesmo tempo comovido pela acertada decisão que fiz aos quatro anos de idade. Se eu tivesse que escolher minha profissão mais uma vez, com toda certeza optaria, sem pestanejar, pela Medicina. Alcançar meu objetivo não foi fácil, e mais difícil foi transpor os inúmeros obstáculos ao longo de minha frutífera jornada de vida. Das inúmeras lições que aprendi com meu saudoso pai, transcrevo um de seus consagrados pensamentos:

 “Vencer sem lutar é vitória sem glória”

(Anísio Vilela Avelar 1909-1996)

Crônicas de Edgar Franco













     Por que decidi jamais “trabalhar”.

Nessa vida tudo que nunca fiz foi trabalhar. A palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento de tortura medieval muito cruel, e é verdade, no mundo contemporâneo o termo “trabalho” passou a ser considerado algo desagradável que você tem que realizar para ganhar o seu sustento. Toda a minha vida tem sido uma história de aversão ao trabalho, nunca trabalhei e espero jamais trabalhar!
Fiz dos quadrinhos uma das minhas formas expressivas prediletas pelo amor genuíno que tenho por sua linguagem, amor que começou na tenra infância quando meu pai comprava gibis para mim todos os finais de semana, a princípio na saudosa “Livraria Barros”, nosso local de visitas obrigatórias todos os finais de semana desde antes de eu saber falar, e depois na notória “Itacolomy”, que até hoje resiste bravamente em nossa Ituiutaba apesar da decadência inevitável dos impressos em um mundo cada vez mais digitalizado. Foi com os quadrinhos que aprendi a ler. Logo veio o desejo de criar quadrinhos e ainda com 12 anos de idade publiquei minha primeira HQ em um fanzine e continuei a produção incessante que hoje ultrapassa as 3 mil páginas publicadas, somando-se fanzines, revistas e álbuns em quadrinhos. Também decidi levar os quadrinhos para o meu universo de pesquisa e fiz mestrado em multimeios na Unicamp, onde realizei um estudo pioneiro no mundo sobre as HQs na Internet categorizando o que batizei de HQtrônicas; depois no doutorado em artes na USP criei um universo ficcional transmídia que entre outras criações gerou álbuns em quadrinhos, revistas e fanzines. Hoje, além de artista transmídia, sou professor no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da UFG – Universidade Federal de Goiás, onde oriento mestrados e doutorados sobre o tema, e também criei a disciplina de graduação “Histórias em Quadrinhos de Autor”, que ministro na Faculdade de Artes Visuais da UFG.
Não considero nada do que faço como “trabalho”, referindo-me a essa palavra como algo que deve ser feito à revelia do que gostamos para garantir nosso sustento. Olhando minha trajetória percebo que nunca trabalhei na vida, pois sempre segui o meu coração. Minha história é pautada pela busca incessante de realizar aquilo que me dá prazer e com o que posso contribuir de alguma forma para a minha integralização como ser e para a transformação do mundo em lugar melhor. Nunca objetivei “ganhar dinheiro”, mas ele nunca me faltou, até porque sou um homem simples, desinteressado em posses materiais, que infelizmente são o objetivo maior de uma sociedade guiada pelo hiperconsumo.
Faço o que amo e não preciso “trabalhar”, e mesmo quando passei por dificuldades materiais nunca deixei a pureza de meus objetivos ligados às atividades que amo. Infelizmente, como professor, vejo constantemente os jovens abdicando de seus talentos - daquilo que amam -, para seguirem caminhos torpes guiados apenas por resultados financeiros, enterrando seus sonhos e vendendo-os por lixos como “carros do ano”, “celulares de última geração”, roupas de grife e toda essas bugigangas que têm contribuído para a destruição da biosfera. É lamentável perceber os valores cada vez mais guiados pelo ter, em um mundo cada vez mais necessitado do ser.

Edgar Franco é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em artes pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Acadêmico da ALAMI, possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia e histórias em quadrinhos. ciberpaje@gmail.com




terça-feira, 25 de julho de 2017

CRÔNICAS DO CIBERPAJÉ EDGAR FRANCO

















Como Tornar-se um Artista Genuíno?

Essa semana fui agraciado com a notícia de que dois pesquisadores PhDs de duas das mais importantes universidades do mundo, Cambridge e Bristol, da Inglaterra, lançaram um livro com um capítulo inteiro dedicado à análise de minhas obras artísticas, destacando sua singularidade e importância no contexto latino-americano. O livro chama-se "Posthumanism and the Graphic Novel in Latin America" e uma versão em e-book pode ser baixada gratuitamente no site da “UCL Press - University College London Press”.  Em minha vida de artista e em meus quase 20 anos como professor de artes, sempre em entrevistas e também dentre os questionamentos dos alunos surge essa pergunta: - Como tornar-se um artista genuíno? A ela respondo primeiramente esclarecendo o fato de que arte não deve jamais ser confundida com “entretenimento”. Parafraseando o artista inglês Alan Moore: “o entertainer dá o que as pessoas querem; o artista, o que elas precisam”.

Mas se você quer tornar-se um artista, posso dar-lhe algumas dicas a partir de minha experiência. Primeiramente, e o mais importante de tudo, no contexto do mundo hiperinformacional em que vivemos, é você se auto conhecer. Investigar no interior de si mesmo aquilo de que você realmente gosta. E não importa o que você gosta, qual gênero, estilo ou escola de arte! Seja sincero consigo mesmo, eleja verdadeiramente aquilo que te apaixona como forma de expressão e mergulhe profundamente nesse universo criativo. Lembre-se que um bom artista nasce da assiduidade do ato criativo, portanto crie muito, da quantidade surge a qualidade. Não tenha medo de errar na hora de criar, erre, erre muito, pois é dos erros que vão aparecer os acertos! Eu vejo sempre jovens criadores querendo começar a primeira obra e acertar, já criar uma obra prima, e ter sucesso e fama com ela. Isso não vai acontecer, não espere resultados, crie pelo prazer e pulsão de criar. Outra dica importante, não fique bitolado só no universo da arte que você quer desenvolver, porque você vai tornar-se um reprodutor daquilo que já foi feito por outros. Todo artista tem que experienciar continuamente todas as formas de expressão: vá ao teatro, vá muito ao cinema, e não só ao cinema mainstream comercial, encare o cinema de artista, autoral, aquele que você está achando meio chato, encare, pois ali você aprenderá sutilezas sobre a linguagem narrativa. Não leia só o mangá que você gosta, mesmo que você vá fazer mangá, leia todas as formas de quadrinhos que existem, e leia livros, busque os grandes clássicos da literatura mundial e nacional e leia-os. Envolva-se em todas as formas de arte, e também procure experimentar criar em outros suportes e para outras formas de expressão. Se quer criar algo seu, para ser genuíno é necessário cultivar uma visão ampla de cultura, assim você vai criando novas conexões neuronais, e evitará produzir obras derivativas. Eis os pontos fundamentais: criar muito e disciplinadamente, tornar o ato criativo algo de seu cotidiano; ter a cabeça aberta para experimentar todas as artes como fruidor e criador; estudar bastante; e finalmente, não ouvir as críticas, a não ser de quem te ama de verdade. Importante destacar que essas são dicas para forjar um artista genuíno, e não um trabalhador submetido ao mercado ou coisas do gênero.


Edgar Franco é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em artes pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Acadêmico da ALAMI, possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia e histórias em quadrinhos. ciberpaje@gmail.com

Crônicas de Jair Humberto Rosa







Fé, Esperança e Caridade



Jair Humberto Rosa - ALAMI

As três eram irmãs:Maria da Fé, Maria Esperança e Maria Caridade. As más línguas diziam que quem mais fazia caridade era a Fé: costumava dar muito de si para gente da cidade e, para não parecer preconceito ou pouco-caso, também para alguns da roça. E sem qualquer interesse pecuniário. Entretanto era de pouca fé, não acreditava muito que alguma coisa pudesse melhorar algum dia em sua vida.
Caridade, porém, não era de fazer caridadese, se alguma coisa concedia, era a troco de alguma compensação monetária. Dizia, entre humor e sarcasmo:
- “Quem trabalha de graça é relógio”.
Coerente e assertiva era a moça.
          Esperança, ainda que tivesse esperança de que algum dia as coisas melhorassem, não tinha uma vida nada confortávele, ao casar-se com um moço da roça,em nada melhorou seu padrão de vida. Pelo contrário, o trabalho, que já não era pouco na casa da família, teve expressivo aumento ao assumir sua condição de dona-de-casa.
          Cuidar de um lar não é incumbência nada fácil. Cozinhar, lavar e passar roupas, limpar e arrumar a casa, cuidar de filhos e ainda ter de educar os pirralhos, deixa qualquer mulher exausta em pouco tempo. Muitas, entretanto, como Esperança, aguentam firmes a missão que lhes foi dada por Deus, e fazem tudo sem reclamar. Comportam-se de forma conformada, resignadamente.
          Esperança, por seu turno, vivia dando demonstrações de alegriae era dada a contar piadas, embora com finais trágicos, quase sempre.
Como cada uma seguiu seu caminho, morando em lugares diferentes, pouco se viam na idade adulta.
Caridade acabou por encontrar um pretendente abastado, foram morar juntos, constituíram uma família, viveram maritalmente até que o pobre homem, não muito jovem e já sem boa saúde, acabou por partirpara um mundo melhor.
Caridade ainda usufruiu de uma vida confortável por muitos anos.
Fé, cansada de tanto ajudar as pessoas,sem reconhecimento nem gratidão, tornou-se uma mulher triste, mesquinha, ensimesmada reclusa em sua casa lúgubre. Um dia desapareceu, ninguém soube para onde fora, e parece não ter feito falta a ninguém.
Esperança, por sua vez, não suportou por muito tempo a vida triste que levava, sem sentir nenhum prazer em vivere, mesmo sentindo-se covarde em abandonar os filhos, arrumou a mala e na calada da noite foi para a estrada pegar uma carona rumo à cidade grande.
Contrariando o dito popular, soube-se depois de alguns anos, Esperança foi a primeira das irmãs a deixar este mundo.

* Jair Humberto Rosa é autor, entre outros, de  "O sujeito", contos, J. Scortecci, São Paulo, 2005;


Crônicas de Jair Humberto Rosa


  







Penas

            Jair Humberto Rosa - ALAMI
Nestes tempos escuros e de finais imprevisíveis para os diversos agentes envolvidos, o que não está faltando é gente em polvorosa, com ataques de ansiedade e insônia, além de síndrome do medo. Especialmente medo de receber a visita indesejada do tal japonês. Ressalte-se que não temos nada contra os japoneses, muito pelo contrário, temos por eles respeito e admiração, mas tem um especificamente que está espalhando medo e apreensão que beira o desespero, razão de sua rejeição por parte de importantes figuras nacionais.
Muitos são os encrencados, e torcemos para que a lei e a justiça atinjam todos, embora não sejamos tão ingênuos a ponto de acreditarmos que isso ocorrerá. Mas pelo menos que os surubins sejam alcançados e fisgados, posto que bagres, traíras e, em maior quantidade lambaris, sejam difíceis de serem atingidos, devido à enorme quantidade de indivíduos nos cardumes. E tem cardumes em diversos segmentos, além do mais.
Sendo assim, resta-nos a resignação deconformarmo-nos com o aprisionamento desses espécimes mais avantajados.
Um desses escolhidos, por sua origem humilde, falta de escolaridade e sofrimento que teve na infância, penando por falta de condições mínimas de vida, poderia ser agraciado com um recolhimento em espaço limitado (pode ser chamado de cadeia) por um período de cento e vinte anos. Como em nosso país há uma grande compaixão com os malfeitores, ele ficaria um sexto desse tempo, ou mais precisamente vinte anos, saindo do retiro com pouco mais de noventa. Tendo uma vida saudável, sem cigarros nem charutos, e não sendo consumidor de rabo-de-galo nem uísque escocês nem paraguaio, ainda poderia voltar à vida política.  
Outra, mais jovem embora não tão jovem, tendo nível escolar superior, mas sem experiência nem competência nenhuma para o cargo em que foi colocada, poderia ficar bem justiçada com cento e cinquenta anos de pote; e da mesma forma cumprindo somente um sexto desse tempo, voltaria a ver a luz do sol com pouco mais de noventa, e ainda teria vitalidade para retomar a vida pública, onde poderia voltar a enganar muita gente e promover muito desarranjo social. Bastaria contratar um bom marqueteiro, já que por si mesma não consegue se expressar de forma convincente.
 Outro cuja punição certamente agradaria a maioria das pessoas de bem, experiente na política, nascido em berço de ouro e bem escolado, precisaria de um tempo maior de reclusão, até mesmo por ser mais jovem. Cento e oitenta anos, que significaria permanecer fora de combate por, pelo menos, trinta anos, parece razoável. Sairia ainda vigoroso, caso não se transformasse em pó.
Por último, levando em conta a imensa experiência, a perspicácia, a altíssima escolaridade e a capacidade de arregimentar seguidores, o outro que podemos destacar mereceria uns duzentos anos de pena, considerando até mesmo que muito sugou o sangue do nosso povo. Esse tempo de reclusão na realidade proporcionarianada mais do que trinta e três anos de isolamento social.

Sendo o menos jovem de todos, voltaria à liberdade com pouco mais de cem anos. Idade pouca para um vampiro. 


* Jair Humberto Rosa é autor, entre outros, de  "O sujeito", contos, J. Scortecci, São Paulo, 2005;


segunda-feira, 24 de julho de 2017

As crônicas de Whisner Fraga



“Tenho sentido um prazer imenso em escutar os velhos discos.”

Whisner Fraga - ALAMI
Exumei alguns elepês e encaixei na vitrola, depois de décadas. Não é força de expressão, foram décadas mesmo. Interessante isso, de manusear o vinil, de ver o trabalho de arte em uma capa enorme, de ler os créditos da produção, de ler as letras das músicas. Havia ocorrido de me desinteressar razoavelmente por música. Ouvir uma faixa no celular ou no computador nunca me atraiu o suficiente. Mesmo em CD a coisa não andava bem. Não estou falando nem em qualidade sonora, porque não tenho o ouvido apurado o bastante para discutir esse assunto. É o fetiche mesmo, o objeto. Tenho sentido um prazer imenso em escutar os velhos discos. Parece que a música deixou de ser apenas pano de fundo para se tornar novamente protagonista aqui em casa.
Sem falar nas feiras. Porque no Brasil ainda é complicado achar discos novos, então temos de recorrer aos sebos, aos usados. O verbo “garimpar” nunca fez tanto sentido. Parece que nos anos 1970, 1980 só produziram música ruim. Isto é, ruim para o meu gosto. Ray Connif e Perla são figurinhas carimbadas nas lojas de segunda mão, mas não me interessam.
O que há de rock progressivo? Gótico? Muito pouco, o que significa que o que encontramos é caro. Se há três décadas esses long-plays eram raros, imaginem hoje! O que você tem aí de folk? Pouco, pouco. Industrial? Quase nada. Um ou dois elepês. Começou a parecer um hobby caro. Por que não aproveitar o spotify, muito mais em conta?
Então resolvi dar uma passeada pelos sebos de livros, que resolveram investir também nos vinis. Mas ainda está tudo incipiente. Não há muita organização, o que dificulta a procura, mas também a torna mais emocionante. Encontrar um tesouro no meio de tanto lixo é sempre desafiador. Horas e horas de garimpagem e… Nada.
Parece mais fácil correr atrás de livros raros. Clarice Lispector autografado. Guimarães Rosa assinado. Primeira edição de João Antônio. Pode ser que meus olhos estejam mais adestrados para a literatura. Ainda me considero iniciante na música. Acho que sempre serei.
O processo todo me parece mais emocionante. Você pensa em um álbum e vai atrás: grupos em redes sociais, sites especializados, lojas virtuais, sebos físicos e tenta encontrá-lo. Em casa, o disco deixa de ser tentativa e erro, ele se torna certeza. Ouço com mais paciência, faixa a faixa. Dou uma segunda, terceira chance. Entendo que o trabalho já não é tão descartável quanto no computador ou no celular. Não basta ouvir quinze segundos de uma música e julgar o disco, o artista.
A experiência musical agora é quase física.

domingo, 23 de julho de 2017

Crônicas de Dr. Juarez Moraes de Avelar




Minha primeira visão do mundo

                              Juarez M Avelar - ALAMI
- Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores –


Quando nasci, a humanidade já sofria há três anos as terríveis atrocidades da II Guerra Mundial, período dos mais sangrentos de sua história. Naquela época, os meios de comunicação eram rudimentares, precários e lentos. Com efeito, as informações de que se dispunha nunca refletiam a situação do momento. Contudo, a notícia do fim da Guerra, em agosto de 1945, com a assinatura da rendição japonesa aos americanos, foi recebida por todos com alívio. Portanto, três anos após minha chegada ao mundo, o anúncio do fim das hostilidades bélicas repercutiu rapidamente em todos os cantos do país.
Quando me esforço para acessar informações sobre minha vida precoce, deparo-me com alguns episódios marcantes. A II Guerra Mundial é um deles, graças aos relatos de meus pais e familiares. No entanto, o primeiro registro armazenado na memória é a maravilhosa imagem de minha mãe grávida, com o meu irmão caçula, Jozimar, em seu volumoso ventre. Em minha visão ela parecia mais “gorda” que as demais pessoas. Contudo, certo dia ela entrou em casa com um bebê nos braços que foi nossa alegria de todos.
Ainda cedo foi embalada por sonhos de futuro. Cada um de nós sempre demonstrou desejo de estudar e concluir cursos universitários. Para meus pais, tais desejos ensejavam elucidativas conversas sobre atividades como Engenharia, Medicina, Direito, Pedagogia, Economia, Veterinária e Agronomia, que eram as profissões disponíveis aos jovens interessados na universidade. Essas profissões eram temas de debate, e nós, crianças, anunciávamos que escolheríamos esta ou aquela faculdade. No meu caso, ainda precocemente, cada vez mais se acentuava o desejo de tornar-me médico.
Enquanto meus irmãos mais velhos freqüentavam o grupo escolar, eu, em razão da pouca idade, ficava em casa em companhia de mamãe, no desempenho das obrigações domésticas. Assim, desde minha infância já me identifiquei com o trabalho razão pela qual sempre envidei esforços para realizar as tarefas com dedicação e empenho. Essa convivência com mamãe despertou em mim a curiosidade pela fita métrica, instrumento valioso para o trabalho exercido por meus pais. Inicialmente aprendi a ler os números da fita; em seguida, memorizei sua seqüência, e depois aprendi a dobrá-la para obter a soma de suas metades e entender o significado da multiplicação. O mesmo ocorreu com as operações de divisão e subtração. Minha curiosidade e o desejo de ajudar mamãe levaram-me a tentar algumas anotações, sendo alfabetizado por ela. Que alegria rememorar aqueles momentos de aprendizado, de descobertas tão importantes em minha vida!
Meu vínculo formal com a escola começou aos oito anos de idade e, graças às aulas de minha mãe, pude ingressar no segundo ano do curso primário (hoje chamado Ensino Fundamental). Durante os estudos um turbilhão de sentimentos, ao constatar que freqüentar a escola me levaria, um dia, a cursar uma Faculdade de Medicina. Como foi bom ser embalado por sonhos! O caloroso ambiente familiar era orquestrado por meus pais, que não mediam esforços para alimentar nossos sonhos infantis. Eles nos fizeram entender que para alcançar nossos projetos de vida era necessária dedicação aos estudos. No meu caso em especial, percebi que estudar com afinco era etapa indispensável para realizar o sonho de ser médico. Felizmente, após mais de seis décadas, posso constatar que meus objetivos foram alcançados. Melhor ainda é vivenciar a concretização de sonhos transformados em realidade pelo meu trabalho, para levar uma mensagem de fé a meus semelhantes que necessitam de meus conhecimentos, habilidade manual e arte para realizar a transformação física e psicológica de que necessitam.




Crônicas de Eliane Gouveia
















Dedicado à minha amiga Vera Vilela de Carvalho.

LEMBRANÇAS...
Eliane Gouveia - ALAMI

Querida comadre, hoje passei em frente à sua antiga casa e a vi caída ao chão.

E senti vontade de chorar.


Por alguns segundos um filme se revelou em minha memória.
Vi a entradinha lateral, o portãozinho de madeira por onde eu sempre passava, o corredor comprido que ia até a porta da cozinha.
A casinha de despejo trançada de teias de aranha, com as estantes cheias de livros antigos, a Coleção do Tarzan, o Egípcio...
O terreno no fundo com os galos de briga atrás das telas dos galinheiros.

A figura sisuda de seu pai, a timidez do Paulinho, o olhar maroto do garoto Horácio, as bochechas rosadas do pequeno Vinícius, a beleza delicada da doce Valéria, os olhinhos azuis da vovó Djanira, a “fofura” da simpática Verônica.

E a imagem dela, a mãe Terezinha, aparando as arestas, enrolando pães de queijo para o lanche, dois de cada vez, numa habilidade imprescindível a quem desempenhava múltiplas funções de esposa, mãe, mestra, mulher e amiga amorosa.

Voltei da “viagem” saudosa, olhei as ruínas e pensei:
“Que bom que eu pude partilhar destes momentos felizes!”.
E então eu chorei.
Mas não foi de tristeza, não.
Chorei foi de gratidão!
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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Crônicas de Eliane Gouveia

  






SENSIBILIDADE

Eliane Gouveia -  escritora ALAMI

“Minha mãe tem pelo menos setenta por cento de tudo que a gente precisa”, disse o Dênniffer.
E era verdade! 
Não contando agasalhos, roupas e calçados com os quais ela acudia sempre os “sem-mala”, Alicinha dispunha de mais mil e uma miudezas de primeira necessidade.
Com ela se achava de tudo! 
Tachinha, vela, bucha de torneira, veda-rosca, cola, barbante, isqueiro, elástico, clips, faixa cirúrgica, Cura-Tudo*, Band-aid, bicarbonato, pilha, palito, alfinete, grampo, caneta, lápis, régua, trena, borracha, apontador, mapa, calendário, dicionário, algodão, e até OB (do Médio!).
A turma, ciente daquela prodigalidade abusava.
_ Me arranja uma vasilhinha para pôr minhoca?
_ Cê tem uma peneirinha velha para pegar Lambari?
O Dênniffer era o campeão dos pedidos!
_ Mãe, me dá um chicletinho? 
_ Me empresta uma meia grossa?
_ Me arranja uma pinça para arrancar um pelinho de barba?
Naquela manhã ele estava impossível, tanto que Alicinha, de TPM, já perdia a paciência, quando ele chamou: 
_ Mãe, chega aqui um pouquinho!
Alicinha chegou até a porta da cozinha e viu o Manga Larga* Paraná puxado por Dênniffer que, carinhoso, falou: 
_ Vem se despedir, mãe, que ele já vai embora.
O valoroso animal, já com vinte e quatro anos de idade, “mansinho de passar por baixo”, fora presente do Totonho para o Cleversson, quando este ainda era bebê. 
Agora, sem forças para o trabalho, ia ser doado a uma escola de equitação para Excepcionais.
Ante a cena comovente, a irritação de Alicinha se desvaneceu. 
Abraçou o pescoço do animal, fez festa em seu focinho, desejou-lhe boa sorte e voltou rapidamente aos seus afazeres. 
Não queria que ninguém visse a nuvem de lágrimas que ameaçava despencar de seus olhos.
Depois, já refeita da emoção, analisou:
“É verdade, Dênniffer, sua mãe tem pelo menos setenta por cento de toda a miuçalha material que você precisa para viver. 
Mas você, filho querido, possui cem por cento de toda a sensibilidade que um homem bom pode ter!

Eliane Gouveia é autora de, entre outros,
Casos de Alicinha, anedotas e outras lorotas Scortecci Editora – 2017

Crônicas de Edgar Franco -CIBERPAJÉ








Eu Não Sou Mágico, Sou Mago.

            Dia desses eu estava passando pelo detector de metais do aeroporto de Goiânia e a funcionária curiosa com minha indumentária e cartola perguntou-me: - Você é um mágico? Respondi a ela sem pestanejar: - Eu sou um mago! Ela olhou-me como quem não tinha entendido nada e eu continue minha caminhada pegando mochila e cinto.
            A concepção de magia é algo muito controverso no contexto de nossa cultura completamente infestada por duas polaridades de visão de mundo, uma totalmente materialista e cética, e a outra monoteísta e preconceituosa. Nesse contexto um mago é visto como um idiota ligado à ideia de “nova era”, um pseudo guru de autoajuda, ou um feiticeiro malévolo com pactos obtusos com o demônio e realizador de rituais obscuros e obscenos. Por outro lado, na era da hiperinformação em que vivemos a internet está infestada de informações controversas e milhares de visões, proposições, e conceitos do que seria ocultismo e magia, quase tudo mergulhado em um ar obscurantista e recheado de um hermetismo que no final das contas mantém uma aura de universo misterioso e proibido para a prática mágica. A consequência direta disso é um sem número de espertalhões verborrágicos coordenando fóruns, comunidades e páginas em redes sociais dizendo-se iniciados poderosos.
            Infelizmente toda a cultura ocidental está infestada pela praga da verborragia, as pessoas falam demais, existem eruditos e conhecedores profundos de todos os assuntos, em todas as áreas. Mas em sua esmagadora maioria esses eruditos são intelectualoides frouxos e ineptos que nunca experienciaram nada. Portam-se como enciclopédias ambulantes de assuntos e temas que nunca vivenciaram e subsistem de espalhar essa verborragia inócua e enfastiante por aí. No âmbito do ocultismo e da magia acontece a mesma coisa, temos inúmeros eruditos da magia, escrevendo tratados, criando sites, azucrinando-nos em seus blogs e páginas de internet com um pseudo conhecimento mágico que não lhes serve de absolutamente nada, a não ser pelo fato de se sentirem respeitados por alguns idiotas pueris que admiram tal conhecimento.
            A única magia que me interessa é a prática, aquela que eu posso utilizar e experienciar a transformação de minha realidade. Todo o resto é lixo retórico desnecessário, a vida é breve e não tenho tempo a perder com eruditismos inócuos. Não que eu desconheça a tradição ocultista ocidental, já li demais, mas joguei praticamente tudo no lixo, mantendo só aquilo que me serve, as práticas que incorporo em minha produção artística, pois cada obra minha é uma ação ritualística de transmutação, uma ação mágica. E em essência a magia não é nada mais, nada menos do que isso, a capacidade de manipular símbolos e criar narrativas que podem transformar nossa realidade ordinária. Revelo a vocês os 3 maiores segredos da efetividade mágica, tão simples quanto profundos: O primeiro segredo para uma ação mágica efetiva é a total pureza de intenções, e isso envolve respeito e amor incondicional por todas as formas de vida e jamais conjurar o mal e a dor para qualquer outro ser; o segundo segredo é a aceitação completa do que se é – ou o completo autoperdão; finalmente um mago deve ter a capacidade de estar completamente focado no agora, no momento presente, mesmo quando desejar instaurar uma imagem em sua mente inconsciente que transmutará seu futuro.
            Tenho praticado minha magia há cerca de 25 anos, e sua efetividade é tanta que digo a vocês que tudo que sou hoje devo à minha capacidade de realizar meus rituais mágicos de autotransformação!  Deixo aqui a minha gratidão eterna ao Cosmos pelas chaves que encontrei e pelas que sei ainda encontrarei, também o meu respeito a todas as formas genuínas de transcendência, baseadas no amplo e irrestrito amor universal incondicional.

Edgar Franco é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em artes pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Acadêmico da ALAMI, possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia e histórias em quadrinhos. ciberpaje@gmail.com



terça-feira, 6 de junho de 2017

Crônicas de Whisner Fraga

 




Exumação

Whisner Fraga é escritor.ALAMI


O terreno em que enterrara Bicho havia se tornado um canteiro de obras. Os alunos da Civil cavoucavam a teoria em busca de alicerces, baldrames, pilares.
As chances de se depararem com os ossos dele não eram desprezíveis e foi o que ocorreu. Ana passava em frente e presenciou a exumação. Sabia que era nosso gato. Sabia que estava lhe sendo concedida a chance de se despedir.
Quando do sofrimento, das injeções, do abatimento, lá no fim, Ana não tivera estômago para acompanhar os trâmites: o transporte do corpo, o funeral.
Pede ajuda a alguns colegas e decide sepultá-lo em um local mais calmo. Feita a oração, aberta a vala, foram-se os restos para a terra novamente.
Retornamos às nossas incoerências, já esquecidos, já resignados, já consolados, quando uma turma de adolescentes bate à sala de Ana. Um deles, meio assustado, em tom respeitoso, quase solene, se adianta:
- Moça, não achamos muito certo o que aconteceu.
Ana certamente ponderou que repreendiam nossa atitude, que o ambiente era quase público demais para que o transformássemos em cemitério. Continuou:
- O gato descansava e a gente foi lá incomodá-lo.
Ana escutava, surpresa. Outro se interessou:
- Como é que ele se chamava?
- Zagreus. O apelido era Bicho, mas o nome mesmo era Zagreus.
Quis emendar que não era o da mitologia grega, mas o do romance de Albert Camus, mas ponderou que soaria arrogante naquele momento. O que havia iniciado o diálogo sugeriu:
- Então a gente vai dar o nome ao laboratório de Zagreus. Por enquanto “Canteiro de obras Zagreus”. A senhora concorda?
Ana, emocionada, oferece-lhes uma placa para o tributo.
Os alunos se despedem, agradecidos. A homenagem ficaria melhor do que imaginavam. Bicho merece.
De nossa parte, uma policromia de esperanças
 
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