sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Crônicas do Jarbas











         
EVENTO SUPRAPARTIDÁRIO 
                                                                                                                            Jarbas W. Avelar


Uma crise de âmbito nacional levou a classe política a convencionar um momento de trégua, nos embates por interesses partidários e regionais, e a criação de uma comissão mista, formada por representantes de todos os partidos políticos e de todos os estados da federação.

Acordados quanto à pauta da reunião, ao dia e ao local, onde realizá-la, para lá se dirigiram políticos de todos os Estados.

Em virtude do horário, que já se avançava noite adentro, exaustos e convencidos da impossibilidade de esgotar a pauta, às 23 horas, suspenderam a reunião para uma pausa, acordado seu reinício no dia seguinte, às 8 horas.

Todos restabelecidos, bem trajados, com ares de quem dormira um sono repousante e reparador, dirigiram-se ao local da reunião.

Entretanto, a aparência dos representantes da comissão do Estado de Minas Gerais despertou a atenção dos demais. Os mineiros estavam com olheiras, barba por fazer, cabelos desalinhados e a mesma roupa amarfanhada do dia anterior.

Logo, logo, foram tomados por intensa preocupação no sentido de se precaverem em relação aos mineiros. Tudo indicava que, em vez de  descansar, capciosos e velhacos como são na política, passaram a noite, trabalhando, elaborando estratégias, para lograr alguma vantagem para Minas, em prejuízo dos demais Estados.

Este consenso fez com que um dos participantes, que desfrutava de relativa liberdade junto aos representantes de Minas, se aproximasse de um deles e, em conversa ao pé do ouvido, perguntou:  O que a bancada de vocês ficou fazendo a noite toda, que não tiveram tempo para descansar, fazer a barba e se trocar?

Também ao pé do ouvido, o mineiro respondeu:  Lá em Minas, quando um grupo de pessoas se encontra para conversar, o primeiro que deixar o grupo é “queimado” pelos demais. Em razão disto, ninguém foi dormir.              
     
*Jarbas W. Avelar
Advogado e Escritor


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Cronicas do Saavedra

                                    








                        OS CAMINHOS DA DÚVIDA

Saavedra Fontes

Há muitos anos atrás eu me vi caminhando, sem sentido, pelo campo minado da dúvida. Nem a força da juventude conseguiu evitar o sofrimento. As respostas que eu queria não estavam em mim e procurá-las nos outros me parecia pouco confiável. A semente plantada em meu espírito pela minha mãe, na época de bom tamanho, aconselhou-me a orar. O problema é que as dúvidas começavam ali. Passei por caminhos tortuosos, procurei atalhos, evitei pedras e espinhos e segui. Algo me dizia que não devia parar ou me deixar vencer pelo cansaço. Cruzei com muita gente, igual ou pior do que eu passando pelo mesmo problema. O mais humilde de todos revelou-me o segredo: “- Não procure a verdade, ela por si só chegará até você”. A sabedoria e a verdade estariam com aqueles cuja simplicidade e modéstia no agir e no pensar são mais evidentes? Os livros sagrados de qualquer povo ou religião não exaltam os presunçosos, isto deve explicar alguma coisa.
Mas o que é a verdade? Pelo simples hábito de observar notamos que ela tem inúmeros significados e não é a mesma em cada um de nós. Para Tomás de Aquino ela é a expressão da realidade, isso explica em parte a dificuldade de traduzi-la de maneira absoluta. A realidade é mutante e no mundo globalizado como o nosso adquire formas particulares, sob o jugo constante da mídia sustentada pelo sistema capitalista. As religiões a define de acordo com os interesses de seus dogmas de fé, porque a crença é fundamental. A ciência a vê multifacetada, comprovando algumas e deixando outras para serem contestadas. Não existe a verdade absoluta,
A definição grega para a verdade é no mínimo curiosa, pois “aletheia” se traduz por aquilo que é visível aos olhos e à razão. Só que é muito pouco diante da nossa busca incessante o que podemos ver, se os problemas espirituais ficam concentrados na boa vontade de nossa fé e é um mistério. Talvez porque os gregos fossem artistas sua concepção de verdade fosse diferente. O pensamento prático dos romanos chamava a verdade de “veritas”, que em latim significa o que pode ser provado. Em hebraico “emunah” quer dizer confiança ou esperança de que o que será revelado virá por meio de Deus. Uma forma romântica e religiosa de transferir o problema.
Com o meu modesto cérebro levado a pensar, chego à conclusão de que a verdade é uma só, mas nos está sendo entregue em doses homeopáticas, de acordo com a evolução do homem e de suas pesquisas. Talvez Deus não tenha nada a ver com isso ou queira permitir, como Pai complacente e habilidoso, que a gente aprenda sozinho, apanhando, sofrendo ou descobrindo através dos privilegiados gênios da Humanidade.

Uma das grandes lições que levei na vida, ocorreu quando eu era ainda adolescente e rebelde. Fiz uma crítica, até certo ponto ofensiva, à crença que minha mãe depositava nos milagres de suas novenas a Santo Antônio. Naquele dia, ele havia prometido que no nono dia conseguiria a cura de uma epífora, uma retenção de lágrimas nos olhos de uma criança vizinha nossa, causada talvez pelo entupimento do canal lacrimal. Incrédulo, critiquei-a pelo fato de haver prometido que a cura ocorreria exatamente no último dia da novena. Cético, eu achava que poderiam ocorrer duas coisas: ou não surtiria efeito ou a cura poderia acontecer por vias naturais antes ou depois da data combinada. Levei o maior pito de dona Nenem, minha mãe, que não admitia que se duvidasse dos milagres de Santo Antônio. E não é que exatamente no nono dia da novena, pela primeira vez o menino acordou curado, de olhos bem abertos e sob os aplausos e a alegria de sua mãe. Descobri então que milagres existem e que as orações sejam elas de qualquer religião têm muito valor. Foi minha primeira verdade revelada.

sábado, 17 de outubro de 2015

Crônicas do Jarbas Avelar






Uma realidade oculta em grandes centros urbanos


          Jarbas W. Avelar

Quando estudante de Direito em São Paulo, voluntariamente me aproximei da instituição sem fins lucrativos, de âmbito internacional, Lar de Paraplégicos, que tem por objeto estatutário dar assistência a pessoas portadoras desta deficiência, bem como às suas famílias que, consternadas pelo infortúnio do parente enfermo, cercam-no de atenções e mimos em alguns casos em demasia, condicionando-o à permanente dependência, por obstruírem seu crescimento, seu progresso.
A instituição prioriza os grandes centros urbanos, onde o estresse e as interferências psicossociais exercem determinante influência nos sentimentos das pessoas, e, no caso de pessoas que têm parentes paraplégicos em casa, estas interferências são intensificadas pelo natural efeito, desgastante da longa convivência. Por precisarem da companhia constante de um familiar, conseqüentemente, privam-no de participar de eventos sociais e recreativos.
O desgaste causado por esta convivência altera o humor de todos da família. O sentimento de consternação é substituído pela sensação de que são punidos, sem que sejam culpados pela fatalidade de terem um paraplégico na família. Por sua vez, esta sensação evolui para ressentimentos, estágio que os faz se sentirem no direito de acomodar o parente paraplégico  que passou a ser um estorvo, num cômodo isolado da casa, sob o pretexto de lhe darem espaço privativo para nele viver a seu modo. Há casos em que ele é transferido para cômodos, nos fundos dos quintais, onde fica recluso. São recorrentes as denúncias de tratamentos desumanos.
Muito embora confirmados os maus tratos, há familiares que oferecem resistência a intervenções da instituição. Negam a existência do parente paraplégico, e dificultam o acesso. Vencidas a resistência e as dificuldades, os agentes credenciados assistem o paraplégico recluso; muitas vezes, em lugares sem as mínimas condições de higiene e salubridade, e ele se esconde ou avança, como um animal selvagem, tal seu estado de desordem mental.
Com autorização dos familiares, é levado para um Lar de Paraplégicos, onde passa a conviver com seus iguais. Em questão de dias, ele recupera sua auto-estima e se desperta para a busca de sua auto-suficiência; a exemplo dos demais. O Lar é administrado por seus moradores, sucessivamente, com gestões de um ano.
As mulheres se dedicam a afazeres domésticos, à confecção de roupas para crianças e ao artesanato: pintura em tecido, bordado, confecção de bijuteria, tiara... Os homens se voltam  para a fabricação, em madeira, de casinhas e mobílias para criança brincar, tamancos, para crianças e adultos, carrinhos de brinquedo... Nos fins de semana, promovem bazar para venda dos produtos às pessoas que os visitam.
 Lembro-me do morador de um dos Lares, que adaptou um carrinho de pipoca à sua cadeira de rodas, e de um fato, revestido de muita ternura: o nascimento de uma menininha, filha de um casal de paraplégicos; também moradores de um dos Lares. Ela encheu o Lar de alegria, energia e vitalidade.


*Jarbas W. Avelar
Advogado e Escritor                                                                                                                                                    



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Crônicas da Regyna


                                




     Celisa Tavares das Neves




Os tempos mudam aventurando novos cenários, capítulos, enfim… mudam.
Bem eu sei, pois, vivenciei tudo. Eu vi passar os capítulos desta história.
Mas, por minha grã alegria, ninguém pode mudar uma história continuada no bem, graças a Deus…
Da nossa desventura, a perda não muda os tempos, nem os anos de alegria e aprendizado.
Ao pensar na tristeza da solidão,tenho por certeza que você CELISA, foi ao longo dos anos um ícone na educação,convertendo lindas crianças e jovens à sua natureza de cidadania.
Os leoninos (Escola Estadual Lions) em luto chora, pois, Celisa que amávamos se foi.
Com choro, lembranças, mas quem diz que chorar, lamentar, consola e descansa?
Há-de ter chorado e que as lágrimas sejam por igual gratidão e alento aos corações agradecidos, promovendo o descanso merecido.
Contudo olhos marejados de quem ama, choram mais que os de ninguém, que o que é para maior bem a história, “sua história” seja eterna e viva, tenho já para maior certeza a minha eterna gratidão.
Celisa, lágrimas manso a manso, lavam a alma de quem fica saudoso, desta eterna mestra do bem. Sempre de mãos postas acolhia a todos, com a voz mansa acalmava, com os passos lentos promoviam a paz e a delicada sabedoria na humildade.
Celisa, nossa referência como educadora, obrigada por ter permitido fazer parte da sua vida.
Que nossa gratidão te sirva de descanso eterno, nas escolas celestes, como uma história de cristal.


 
24/09/2015
Regyna Marques

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crônicas da Adelaide








                      o sol nosso de cada dia -
 


A temperatura continua alta em todo pais, terrivelmente alta. Problemas de desidratação em crianças e idosos têm sido expressiva, dado ao temível aquecimento global. Com o racionamento da água tudo se complica. A água é grande sustentáculo da energia elétrica, uma depende da outra, e ambas racionadas. Há grande necessidade de se ingerir porcentagem bem maior de líquidos. Quem seria o responsável por essa situação calamitosa?! Claro que todos nós que não seguimos à risca os preceitos em favor da natureza, do meio ambiente. As advertências têm sido feitas, porém aqueles que atendem são minoria, razão da mãe natureza, do ecossistema estar se ressentindo das agressões. Poluição continua a todo vapor, nos rios, na terra e no ar, e em alta escala. O que se constata na Baia de Guanabara, uma das sedes das próximas disputas internacionais, é algo lamentável e tenebroso. Os entulhos, detritos que são ali jogados causam espanto, sem falar na poluição por toda a baia, inclusive nas orlas, onde os lixos se multiplicam, muita sujeira. Por quê agir dessa forma, por quê ?! Até carro velho, sofás, mobílias são lançados nos rios, sem falar na quantidade de dejetos, ali depositados, cotidianamente… Verdadeiro depositário de inutilidades… Terrenos baldios tornaram-se depositários de quinquilharia, sobras de alimentos, lixo e coisas imprestáveis… Além do desagradável cheiro exalado, a procriação multiplicada de ratos, baratas, escorpiões, botando em risco a vida de uma população e principalmente de crianças. Reclamações generalizadas… A educação ainda é a maior aliada do progresso, do desenvolvimento e principalmente da saúde, já que a higiene é base notória da saúde… Fica-se a imaginar a consciência daqueles que cometem tais vandalismos. Realmente não existe outra resposta a não ser a falta de conhecimentos básicos, para a vida. Há pessoas analfabetas, cuja educação de berço expressiva supera a acadêmica; têm senso crítico a respeito de tudo; herança daqueles que se primam pelos bons costumes. Vamos aguardar ansiosos, as propaladas chuvas… E elas virão… Vamos aguardar também esperançosos que a educação habite a razão e o coração de seres humanos… A natureza vai agradecer…!

Adelaide Pajuaba Nehme- Acadêmica da ALAMI


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Crônicas do Whisner












FELIZ ANIVERSÁRIO

Whisner Fraga é escritor.

Hoje Helena completa quatro anos e não vou dizer que esse tempo passou rápido demais, porque não quero difundir clichês. Mas que passou, passou. Quando ela nasceu, fiz uma promessa: escreveria um diário para ela. E, dia após dia, durante um ano, relatei algo de sua vida em um caderno improvisado. Não que o empenho tenha arrefecido, mas depois fiquei desleixado. Anotava, vez ou outra, o que ocorria, apenas os eventos principais: primeiros passos, primeiras palavras, primeiros sintomas de que fazia parte mais ativamente da humanidade.
Hoje ela faz quatro anos e, se formos pensar, cometemos inúmeros erros em sua educação. Não há mais tempo para corrigi-los, pois sabemos que uma cabeça se molda nesses anos introdutórios. Todavia, também estamos conscientes que acertamos muito. Afinal, a existência é mesmo assim: não há aquele que sempre acerta. O mais importante é sabermos discernir, nessa educação falha (como toda educação), onde teremos de atuar. Não sou idealista a ponto de achar que com diálogo tudo se resolve, mas que ele é uma boa ferramenta, isso é.
E é bom que se diga que optamos pelo diálogo. Com frequência nos sentamos com a menina e conversamos. Tentamos explicar até aquilo que, aparentemente, não está ao alcance de sua moral em formação. Algum dia, quem sabe, ela pode se lembrar do que orientamos e atuar em prol de seu aperfeiçoamento?Parece-nos que estamos aqui para nos aperfeiçoar. Para quê, afinal? Não importa. Para alguns, é um preparo para o que virá. Para outros, não é nada. De alguma maneira, entretanto, o importante é o respeito ao próximo.
Não somos radicais com nada, pois parece-nos que, assim, ela terá suas chances de escolhas respeitadas. Pensando bem, nunca fomos radicais em nenhum tema. Hoje ela faz quatro anos e já dedica seus vinte minutos diários a mandar mensagens no whatsapp. Aliás, aprendemos a usar esse aplicativo como auxiliar em sua alfabetização. É divertido. Hoje ela faz quatro anos e já me pede para ler livros junto a ela. Hoje ela faz quatro anos e faz muita birra por motivos fúteis. Hoje ela faz quatro anos e alugamos um pula-pula para que ela possa extravasar seu vigor infantil.
Queremos que ela seja feliz. Acho que o fundamental nessa vida é buscar a felicidade. Evidentemente que ela não pode vir às custas do sofrimento alheio, consideramos isso. A segunda coisa mais importante nessa breve existência é saber respirar. A terceira, contar. A respiração é o segredo para quase tudo. Se estamos irritados, basta respirarmos fundo, contarmos até cem, pausadamente. Certo, Helena? É imprescindível saber contar até cem, mesmo com quatro anos. Quer trazer desaforo para casa? Traga, traga sim. Faça suas escolhas.
Esperamos, Helena, que você seja feliz. E que aprenda com a felicidade. Aprenda sempre, com tudo. Esperamos, Helena, que mesmo com oito, com quinze, com quarenta anos, você venha nos dar o abraço amoroso e o beijo libertador, pois só você, como filha, sabe nos dedicar esse carinho que nos fortalece diante de um mundo cão.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Crônicas do Jarbas Avelar

 






Tenho direito a dois!

                                                                                                                                                               *Jarbas W. Avelar

 De retorno à terra natal, e estabelecido na área da educação, fiquei chocado com o número de pedintes nas ruas. Deparava-me com um aqui, outro ali, outro acolá... Esta fatalidade me causou desassossego. O que fazer? Ignorar? Não! Seria castigado pelo sentimento de culpa! São meus conterrâneos, meus irmãos...
 Com o passar dos dias, senti os sintomas da tortura psicológica, gerada pela inércia. Tinha de fazer alguma coisa por aquelas pessoas que viviam em um vácuo. Vida sem sentido. Viviam por viver, desapegadas de perspectivas, ideais. Vegetavam.
 Enquanto não me ocorria o que por elas fazer, espontaneamente, dei R$1,00 a um pedinte que apareceu, em uma quinta-feira, em minha escola, pedindo “um auxílio”. Na segunda-feira, da semana seguinte, voltou. Dei-lhe outra moeda de R$1,00. Na quinta-feira, da mesma semana, retornou, e, mais uma vez, dei-lhe R$1,00. Notei que se tornara freguês. Puxei assunto para assimilar seu “modus vivendi”. Resignado, falava com naturalidade e sem ressentimentos.
Na segunda-feira seguinte, ele veio, trazendo um amigo. Dei R$1,00 a cada um. Um mês depois, a freguesia aumentara. Contei oito. Para disciplinar o fluxo, combinamos de virem às quintas-feiras.
O constante aumento de fregueses e minha aproximação deles serviram de lenitivo para amenizar a ânsia por encontrar uma solução para o quadro de mendicância da cidade.
Em uma das quintas-feiras, um dos mais antigos não apareceu. O que teria acontecido? Adoecera... falecera... Coitado! Mas, na semana seguinte, ele apareceu. Senti alívio. Em que pese seu lastimável estado de pobreza, estava saudável. Entreguei-lhe a costumeira moeda de R$1,00.
Com a moeda na palma da mão esquerda e olhando em mim, li, em sua fisionomia, indignação. O clima de admoestação foi por ele quebrado, ao dizer: Eu num vim na semana passada, tenho direito a dois!  Não me contive e, involuntariamente, soltei uma gargalhada. Os demais, que aguardavam a vez para receber seu adjutório, descontraidamente, riram de sua franqueza, e passaram a chamá-lo de “Tenho direito a dois”.
 A partir de então, nosso convívio ficou mais afável, de igual para igual. Eles, isentos dos recalques comuns em pessoas desfavorecidas, e eu me desvestia dos resquícios de privilegiado, clima ideal para despertar neles interesse por atividades de natureza econômica, que lhes rendessem dinheiro sem terem de  pedir. Por exemplo: podar jardins e árvores, lavar carros, engraxar sapatos, distribuir panfletos publicitários, vender bilhetes de jogos das casas lotéricas. Inspirei-me, neste item, em experiência adquirida, em São Paulo, como assistente de Lares de Paraplégicos. Oportunamente, farei abordagem a essa passagem.       
Simultaneamente, passei a orientá-los a ir à “Farmacinha da Terra”, entidade que se dedica à manipulação e distribuição, gratuita, de remédios caseiros, e, implantado o Bolsa-Família, conseguimos inscrever a maior parte deles. Mais recentemente, alguns foram contemplados no programa Minha Casa, Minha Vida.
Por vezes, encontro um ou outro pelas ruas; agora, com aparência mais agradável. Dedico-lhes um dedinho de prosa, momento em que nos lembramos, festivamente, do episódio “Tenho direito a dois”. 

*Jarbas W. Avelar
jarbasavelar@yahoo.com.br

Advogado e Escritor 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

               UM DIA DE PAI

Whisner Fraga é escritor.


A criança se agita na cadeira de rodas. Beethoven incomoda. O pai acarinha os cabelos da criança. Pelo menos eu imagino que seja o pai. A julgar pela brandura, pela paciência e pela dedicação, só pode ser o pai. Tento não olhar muito. O ambiente está atulhado de pessoas discretas e não quero me destoar delas. O maestro se esforça. Imagino que deve ter regido mais de cem vezes aquela sinfonia. Por isso está concentrado, mas distante. Não consegue mais se emocionar com os acordes.
A música vasculha nossa consciência e nos entregamos. De repente, experimento uma melancolia, uma pequena depressão. Lembro-me que minha filha não foi conosco e sinto saudade dela. O amor é uma ferida aberta na qual borrifam limão. Arrisco novamente uma espiada e o menino agora está no colo do pai. Pondero que não há nada mais enigmático do que a paternidade. Estamos impregnados de genes alheios. Somos muito pouco nós mesmos. Vivemos os outros dentro de nós.
Penso nos pais que morreram e isso aliado a um coro que canta “An die Freude” me deixa um pouco mais triste. Recordo-me de meu cunhado, que faleceu de Chagas. Só ele sabia preparar o leite do jeito que minha sobrinha gostava. Os pais têm esse dom da exclusividade. Os pais mortos são persuadidos a experimentar a santidade, porque não podem mais errar. Viro o rosto uma vez mais e a criança agora está calma, o que é estranho, pois a nona está chegando ao clímax.
De meu pai carrego a memória dos voos. Pirralho, eu o acompanhei de Ituiutaba a Barra do Garças. Se não me engano, porque a gente vai amalgamando invenções ao que aconteceu de fato. E a verdade passa a ter um toque de fantasia, de liberdade, embora não deixe de ser verdade.Era um avião pequeno, um teco-teco, e talvez passássemos alguns apuros, quem sabe? Fica o toque límpido dos rios, quando eu tentava alcançar a boca dos peixes com o anzol inexperiente. E nunca exumei um piau daquelas águas.
Pai é esse padecimento, esse paradoxo. Havia ainda as aprendizagens, quando eu montava o trator e desandava pelas escarpas da fazenda do patrão, sob os olhares vigilantes do velho. Naquela época já era velho. “Além do céu estrelado, mora um pai amado”, entoa o coro, em alemão. Mais um pouco e as palmas rebentarão. O público quer a sua hora. O pai ajeita o filho, sabe que terá de carregá-lo até o carro, mas não se preocupa. Teve uma noite esplêndida. Só espera que vivam para sempre, que saboreiem indefinidamente essa proximidade. Só espera que vivam para sempre, embora saiba que isso é impossível.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crônica do Jarbas Avelar








Um causo contado por quem sabe contar

 *Jarbas W. Avelar

O saudoso José Marciano de Morais era fazendeiro, em Campo Alegre, agricultor, pecuarista, oleiro, fabricante da famosa cachaça JM e reconhecido como notável caçador; na época, não havia restrições legais para este tipo de lazer. Em um dos recreativos e amistosos bate-papos, que habitualmente ocorriam em família, recebeu a visita de Zeca Quirino, apelidado de gato, e de Antônio Franco, filho do Senhor Alfredo Franco e de Dona Genoveva.
Zé Marciano contava um de seus memoráveis causos, e muito bem contado por ser ele o protagonista, enquanto Zuzu, Zulmira Carvalho, cuidava de afazeres domésticos, por perto. Ela se casara, posteriormente, com Ostinho, irmão do Isac; creio que seu nome seria Washington.
Seguindo seu estilo pessoal, regado com espontaneidade e empolgação, Zé Marciano narrava uma de suas caçadas, posicionado como se estivesse em uma tocaia. Na espreita, fazia gestos como se tivesse a carabina em punho, apontada para um trieiro, por onde a caça tinha por hábito transitar, deixando pegadas.
Enquanto articulava seus comentários, enriquecidos com minuciosos detalhes, sentia-se um clima de suspense no ar, com ansiosa expectativa pelo tiro, único e certeiro. Se errasse, não haveria oportunidade para o segundo. A caça se assustaria e fugiria em desabalada carreira pelo matagal.
Enquanto Zé Marciano discorria, meticulosamente, Zeca Quirino, por ter uma certa “queda” pela Zuzu, na época ainda solteira, não tirava os olhos dela, acompanhando sua movimentação na lida doméstica.
Com a intenção de advertir Zeca, que estava sendo descortês para com o anfitrião, por não prestar atenção na história que ele narrava, Antônio, zombeteiro, em tom de brincadeira, produziu o chiado, que se faz com a boca: “chiiiip! ”, quando se quer espantar um bichano, já que Zeca tinha o apelido de gato.

Zé Marciano não se deu conta da presença de Zuzu, tampouco das atenções de Zeca voltadas para ela. Entendeu que aquele “chiiiip” se tratava de uma contribuição de Antônio para o desfecho da história. Assim, em absoluta e intensa concentração, e absorvido pelo cenário da narrativa, com o dedo indicador, pressionou, transversalmente, os lábios gesto de quem pede silêncio  e respondeu baixinho, para não afugentar a caça, prestes a aparecer: “Antonce, ainda num tá na hora de atirá”.


*Jarbas W. Avelar 
Advogado e Escritor

terça-feira, 21 de julho de 2015

Crônicas da Marleida







MILAGRES 

Existem dois modos de viver a vida:
Um é como se nada fosse milagre;
 o outro é como se tudo fosse um milagre.
Eu acredito no último.”
(Albert Einstein)

Nem mesmo quem teve o privilégio de presenciar um fato dito como milagre, pela sua natureza inexplicável, estranha e admirável, conseguirá descrever com exatidão os sentimentos aflorados em seu ser ao vivenciar a maravilha da transformação ou reversão de algo que, aos olhos humanos descrentes, parecia impossível, extraordinariamente realizado pela intervenção Divina.
Mas afinal, o que são milagres?
Para muitos eles não existem. Para outros, eles acontecem todos os dias: no despertar pela manhã, no brilho do sol, na chuva que molha a terra, no crescimento de uma semente, no nascimento de uma criança, em uma viagem bem sucedida, entre outros. Ainda existem aqueles que crêem que milagres são acontecimentos ou efeitos cuja causa escapa à razão humana e que raramente acontecem, pois os acontecimentos mencionados anteriormente já tornaram-se tão comuns e naturais que perderam a magia do encantamento.
Os membros do primeiro grupo citado só mudarão de opinião se repentinamente se tornarem testemunhas da cena de um fato incomum, com a clara  comprovação de uma mudança extraordinária. Assim mesmo, haverá aqueles que diante da comprovação milagrosa criarão argumentos para negar o sobrenatural.
O segundo grupo é composto de indivíduos gratos e fervorosos que aprenderam a desfrutar e apreciar as maravilhas do Criador, louvando a Deus pelas bênçãos recebidas cotidianamente, mesmo diante das adversidades.
O terceiro grupo crê, mas talvez as fatigas diárias tenham tomado tanto o seu tempo que têm deixado a vida “passar” diante de seus olhos, tendo perdido a capacidade de contemplação pela grandiosidade da perfeição do Pai.
O fato é que os milagres existem e estão disponíveis a todos que crêem, pois a fé é a força motriz que leva o ser humano a receber aquilo que tanto almeja. Aquele que crê busca em oração e súplicas  e encontra respostas a seus pedidos e aflições, porém nem sempre o que desejamos tanto será benéfico para nossas vidas, assim sendo,precisamos estar atentos às respostas  de Deus, que sonda os nossos corações e sabe o que realmente nos fará bem. Porque para o homem muitos caminhos parecem bons, mas afinal podem levar a destinos indesejáveis. “O coração humano traça planos, mas a resposta certa vem do Senhor.”
Serei sempre agradecida a Deus pelo milagre efetuado na vida de minha querida filha Jaqueline, que completa neste dia 21 de julho 22 anos de idade, pela graça Divina, tendo enfrentado um coma aparentemente irreversível após um atropelamento, há 7 anos atrás. Sua vida é a prova viva de que os milagres existem! Louvado seja Deus por permitir que ela continue alegrando a minha vida e a  de todos que a amam.

“Assim como o oceano só é belo com luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você.”
(Tom Jobim)
Te amo filha!



Marleida Parreira Rocha - Educadora




sexta-feira, 5 de junho de 2015

Crônicas do Whisner Fraga







COM DESVIAR A ATENÇÃO DO EXPECTADOR PARA UMA CENA QUE NADA ACRESCENTA AO ROTEIRO

Whisner Fraga
 
Flagraram o deputado com o dedo no iPhone. O dedo no iPhone bolinando os peitos de uma atriz pornográfica durante uma sessão na câmara.
Ah, estou inventando. Não sei se era um iPhone. As imagens que vi do episódio estavam borradas. Propositalmente borradas. Também não sei se ele acarinhava, com a ponta do indicador, os peitos de uma atriz pornográfica. Não sei sequer se ele assistia a um filme pornográfico. A imprensa não foi muito convincente a respeito.
Mas o deputado olhava para a tela de um celular. Isso sim. E depois este deputado convidou para perto outros companheiros parlamentares, que atenderam ao chamado. A julgar pela atenção que dispendiam ao que passava na tela do telefone, podia se tratar sim de um filme pornográfico.
O assunto que era discutido pelos políticos era, de fato, enfadonho. Reforma política. Talvez os nossos representantes pensassem que se tratava de um jogo de cartas marcadas. Talvez nossos deputados estivessem cansados dessa brincadeira suja a que denominam política. Talvez nossos deputados sejam viciados em filmes pornográficos, só isso.
Parecia haver algo mais interessante para se fazer do que ouvir políticos se divertirem com reforma política. E se havia algo mais interessante para se fazer: ora, por que não?
Flagraram o deputado encarando a tela de um telefone celular. Ao que tudo indica, assistia a um filme pornográfico. Em vez de se aprofundar sobre o tema em votação, talvez de relevância para a sociedade, o repórter preferiu se ater a um filme pornográfico a que um deputado assistia. Me veio a curiosidade: o repórter que registrou a cena já viu algum filme pornográfico em seu horário e local de trabalho?
Flagraram um deputado rindo de Marin e da CBF, mas não do futebol, porque é torcedor devoto do Corinthians. A imprensa não noticiou.
Flagraram o deputado confundindo o botão do painel de votação com um botão do sistema operacional de seu celular. Dizem que o engano é frequente, dada a complexidade tecnológica dos aparatos da casa.
Flagraram o deputado confraternizando com seus amigos, enquanto Eduardo Cunha, que não congraçava com ninguém, mandava e desmandava na câmara. O assunto era desimportante: reforma política. Como foram desimportantes outros assuntos que passaram triunfalmente pela assembleia: maioridade penal e a lei das terceirizações.
Enquanto flagravam o deputado assistindo a um filme supostamente pornográfico, a câmara aprovava o fim da reeleição e a doação de empresas a partidos políticos. Eu acho que a imprensa apenas conseguiu, com a ajuda do deputado que via um filme pornográfico, desviar a atenção do povo para o assunto verdadeiramente irrelevante.



Crônicas da Marleida




Resgatando o Afeto


RESGATANDO O AFETO




Estamos vivenciando uma época de relações transitórias e superficiais. O ser humano está sozinho, embora rodeado de pessoas.
Houve um tempo em que ninguém tinha onde se colocar a sós. Sempre havia alguém disposto a narrar histórias mirabolantes e crianças interessadas em ouvi-las, com um brilho especial no olhar, para posteriormente tecer fantasias eternas em suas mentes descansadas.
Os indivíduos sentiam desejo em visitar, levando em sua bagagem um abraço ou uma palavra de conforto a quem, geralmente recebia com alegria, sentindo prazer em abrir a porta para os que chegassem, mesmo sem aviso prévio.
Havia disponibilidade para ouvir o outro, sem preocupar-se em dispor de escasso tempo livre para si mesmo e a solidariedade para auxiliar o próximo, sem aguardar retribuição.
As pessoas freqüentavam igrejas para orar, não visando solicitar bênçãos para um grupo tão restrito.
Há uma crise existencial na sociedade contemporânea. O cidadão está inserido em um ambiente letrado e tecnológico, porém estão prevalecendo as relações tumultuadas e traumáticas. Nunca os consultórios psiquiátricos foram tão requisitados como na atualidade. A família que serviu de espelho para os civilistas não existe mais.Os pais possuem direitos e deveres para com os filhos, no entanto na exercem mais o controle sociocultural e ético religioso deles. O mercado, a mídia, “os games”, a informática estão provocando o chamado pensamento acelerado. Os programas de televisão, a moda, os vícios estão ocupando as mentes, deixando-as poluídas, sobrecarregadas, cansadas!
A família está se dissolvendo gradualmente, o organismo familiar se esfacelou, parecendo ter perdido os padrões de referência e se tornando vulnerável aos novos conceitos psicológicos. Os pais demonstram estarem confusos como seres humanos, perderam a instabilidade das relações conjugais. Os filhos, por sua vez, sem controle, não vislumbram a direção.
Para compensar a falta de tempo, os progenitores buscam de todas as formas, mesmo sacrificando-se, satisfazer as exigências da prole, sem perceber que objetos de destaque na mídia jamais preencherão a lacuna da falta de carinho, atenção e de diálogo. Aquele que não consegue atender aos incessantes apelos dos filhos, pela ânsia do consumismo, sente-se angustiado, frustrado e até culpado diante da esdrúxula competição atual.
Este novo cenário doméstico tem criado adultos com dificuldades de impor limites. Crianças e adolescentes passam a maior parte do tempo diante do computador, da televisão ou conectado ao celular... Sozinhos! Egoístas! Não querem ser incomodados.
Ninguém consegue olhar fixo no olho do outro, quiçá por receio de visualizar a sensibilidade alheia. É quase inexistente quem se sinta feliz em receber e ser um bom anfitrião, pois em seu parco tempo de lazer, não quer ser perturbado. Até as igrejas têm sido alvo de buscas por recompensas pessoais, que, quando não satisfeitas, provocam ausências.
Urge uma reflexão e uma conscientização por parte de pais e demais educadores para a necessidade de uma nova visão: a formação do caráter, a sensibilização dos sentimentos, a potencialização das virtudes, resgatando o afeto – que demonstra ser a mola propulsora das ações – o diálogo, o olho no olho, o respeito mútuo, a ética, procurando salientar esforços, elogiando, estimulando, motivando, descartando prováveis emulações e elevando a autoestima.
O indivíduo precisa ser olhado de forma holística e sentir-se acolhido, para que as relações nasçam no respeito ao espaço e ao papel de cada um em um ambiente equilibrado e, acima de tudo, feliz.
“Acima de tudo, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição.”
 (Colossenses 3:14)
Marleida Parreira Rocha - Educadora





segunda-feira, 13 de abril de 2015

Crônicas de Marleida Parreira Rocha

Memória Seletiva



     Um cheiro, um lugar, uma música, podem transportar-nos num instante para o arquivo de nossas memórias, de várias etapas de nossa existência e muitas vezes nos surpreendemos sorrindo, recordando gestos ou palavras que nos ajudaram a moldar o  caráter de forma positiva, mas também podemos “acessar” no mesmo local lembranças de atitudes alheias que nos fizeram sentir diminuídos, infelizes, incompetentes, inúteis, deixando marcas profundas de feridas mal cicatrizadas. Alguns, conseguem seguir em frente em busca de seus ideais, apoiando-se no seu amor próprio e na esperança de dias melhores, por enxergar a vida de maneira otimista. Outros fixam os olhos da alma no retrovisor, como se o cérebro ficasse “atolado”, atormentados e presos a circunstâncias que lhe provocaram um turbilhão de sentimentos desfavoráveis que causaram mágoas, angústias e decepções, assumindo geralmente papeis  de vítimas, acomodando-se numa rotina de lamúrias , rendendo-se à tristeza e desmotivação. No entanto, com determinação, creio que qualquer ser humano é capaz de treinar o seu cérebro para selecionar suas memórias, numa espécie de filtro, deixando de fixar seus pensamentos em momentos ruins do seu passado, procurando ocupar sua mente com  fatos que lhe proporcionaram alegria, ainda que passageiros,  sendo gratos  por cada bênção recebida, como acordar todas as manhãs e poder admirar à cada dia um novo cenário desenhado pelo Criador; o sorriso de alguém que amamos; o abraço de uma pessoa querida; a capacidade de poder trabalhar e ajudar o próximo ou simplesmente pelo privilégio de falar com Deus a qualquer hora e em qualquer lugar. Se for possível, encha o ambiente com uma boa música de louvor, elogie as pessoas que te cercam, procurando valorizar mais as qualidades do que as falhas, tentando relacionar com as pessoas tratando-as como gostaria de ser tratado, se for necessária a crítica, que seja construtiva.
     Devemos estar cientes que ao permitirmos que sentimentos negativos inundam o nosso ser, seremos obrigados a conviver com eles, sofrendo assim as consequências dolorosas  de suas contra  indicações. Não podemos mudar o nosso passado, mas podemos tirar de todos os acontecimentos, bons ou ruins, experiências que, olhadas sob um ângulo sábio,  ajudarão a nos tornarmos cada vez mais fortes.

Tudo que alguém fez para você no passado não tem poder sobre o presente. Só você pode dar esse poder.” Oprah

Marleida Parreira Rocha
Educadora




sexta-feira, 3 de abril de 2015

Crônicas de Luciano Vilela Teodoro









O “Nossa Gente”

Nossa Gente ou Baiano Doido que era como meu
pai se referia a ele.

Era um peão do trecho, ou seja, fazia um serviço
aqui outro acolá, mas sempre estava caminhando o
trecho ou rodovias, e estradas de terra.

Um dia esse baiano apareceu lá na fazenda me perguntando
se tinha serviço. Eu disse: ”Nossa Gente, você ainda pega
no cabo da “duas caras” (enxada)? Ele disse: “Que isso
Nossa Gente, nessa época o chão fica grenado de
praga!

Pedi a ele que capinasse primeiro o pomar que na
língua dele “tava grenado” de (muita) praga.

Me sento no alpendre e escuto  a enxada repicar
na pedra brita.

Olho por de cima do muro e vejo o baiano
capinando as pragas e a brita que se espalhava ele juntava
no mesmo lugar.

Eu perguntei o que ele estava fazendo, ele disse:
”É que seu pai falou que não era para fazer bagunça, aí
eu tou pono a brita no mesmo lugar que estava antes deu
carpir”. 


segunda-feira, 30 de março de 2015

Cronicas de Whisner Fraga





PostDateIcon 23 de março de 2015



Whisner Fraga é escritor. 
Contato: whisnerfraga@gmail.com

Parece ser corriqueiro, acontece com todos: dormimos um dia, trabalhamos no outro, almoçamos, resolveu problemas, buscamos os filhos na escola e, de repente, se passaram quinze anos. Nessa brincadeira desfilaram prefeitos, governadores, deputados, presidentes e nos posicionamos segundo nossa cultura e nosso interesse. Amigos vêm e vão e nossa preocupação se concentra mais na família e nos colegas de trabalho. Nossos círculos se estreitam, esquecemos temporariamente os companheiros da infância, perdidos, como zumbis, no cotidiano.
Naquele dia meu amigo Joãozinho chegaria a São Paulo e combinamos que eu passaria mais tarde no hotel onde se hospedara. Nós, humanos, sempre falamos sobre o valor da amizade, mas o fato é que, depois de certo tempo, parece que pregamos para paredes e as paredes somos nós. Talvez seja a correria da capital, o cansaço, não sei. É como se não tivéssemos mais toda aquela disposição para cultivar as amizades. Então se passaram quinze anos, talvez, sem que nos encontrássemos, nós, que fomos como irmãos na infância.
Continuamos irmãos, é claro. Considero Dib, Merched também minha família. Não canso de dizer que parte de minha educação me foi passada por essa família libanesa, que tanto me ensinou. Aprendi com eles o amor aos animais, o respeito ao mais velho, a reverência à cultura de seu país, o apreço ao trabalho, à justiça. Aprendi muito mais e não tenho receio de dizer que parte do que me tornei devo a eles.
Fomos para um restaurante e lá, é óbvio, nos lembramos de como foi uma parte de nossas vidas. Não com aquele saudosismo doentio, mas com alegria. É bom encarar o passado como o que ele é: algo que passou e que deve ficar lá mesmo, para pesquisas eventuais. Muito do que passamos se perdeu: pessoas morreram, sumiram, foram tragadas por suas urgências, mas de alguma maneira ainda estão lá, no que viveram conosco.
Mas nada parecia superar as lembranças sobre futebol. Acordávamos às cinco da matina para jogar bola. Quando acordávamos, é claro. Muitas vezes eu não conseguia e chegava às sete, oito, para a pelada. Batíamos bola durante 8 horas seguidas, debaixo do sol escaldante de Ituiutaba. O Sílvio, diretor da escola Polivalente, amante do futebol, incentivava. Era sábado e ele nos deixava entrar – os colégios eram mais abertos à comunidade do que são hoje.
Ainda jogo. Dois dias por semana alguns colegas se reúnem aqui para uma pelada. Claro que agüentamos correr apenas uma hora, no máximo. Não temos mais aquele pique da pré-adolescência. Naquela quarta faltei ao compromisso para jantar com meu amigo. O futebol da memória foi mais empolgante do que o verdadeiro. Ficamos lá por horas, cada qual se lembrando de episódios daqueles anos 1980. Parecia que éramos vizinhos novamente e que as madrugadas de sábado seriam reservadas para as peladas no Polivalente.


 
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