segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A CRÔNICA DO MÁGICO REGRESSO    

*Saavedra Fontes

São poucos os que diante de uma gravura ou fotografia antigas sabem voltar ao passado, recolhendo com olhar astuto os hábitos e costumes de uma época remota. È preciso que tenham sido leitores contumazes, observadores atentos, e ouvintes de histórias contadas junto a velhos fogões a lenha nos tempos da infância. São pessoas que adoram fantasmas avoengos e herdaram, dessa forma, uma certa atração por museus e pesquisas históricas. É um dom, não tenham dúvida.
Muito mais raros ainda são aqueles de espírito sonhador e criativo, que conseguem se integrar aos personagens retratados, vivendo e revivendo cenas de maneira a regredir no tempo e no espaço com a desenvoltura da realidade permitida. Exatamente agora, tenho diante dos olhos uma velha foto da Praça da Matriz de um lugarejo do interior de Minas Gerais, no fim do século XIX, certamente. Seduzido, deixo-me levar pela imaginação, inexplicavelmente hipnotizado pelo momento retratado, cujas figuras vão adquirindo dimensão e movimento, passando umas pelas outras, indo e voltando no seu passeio voluntário. A maioria trajando roupa branca, calça e paletó de brim, camisa de algodão abotoada até o colarinho nu, sem gravata e com chapéu, a maioria descalça. Outros se destacam pela segurança percebida no porte e no trajar, têm o olhar festeiro de um domingo especial. Debruçado no sonho e na fantasia vi quando um negro, que segurava as rédeas de um burro, fez um sinal convidando-me a chegar. Mergulhei na foto...
Era o ano de 1886 e comemorava-se a festa do padroeiro do arraial, com missa e banda de música na porta da igreja para a retreta dominical. Escravas de saias longas, lenços brancos na cabeça, seguiam na retaguarda carregadas de hircismo e desconfiança. Acompanhavam a sinhá com cheiro de alfazema e que se abanavam nervosamente, sugerindo um ar de incerta nobreza. O leque fazia parte da elegância e servia para abrandar o calor, que as roupas sobrepostas da saia-balão provocavam. Os negros escravos acompanhavam os feitores com as melhores roupas que possuíam, mas sempre descalços. Uma negra velha, de cócoras, de vestido vermelho e turbante colorido na cabeça, fuma um improvisado cachimbo enquanto analisa as pessoas que passam. A terra vermelha pisada por muitos comprometia a limpeza das calças e dos vestidos festeiros.
Após a cerimônia religiosa um foguetório encheu o ar fumaça e a praça de enorme algazarra, levando ao delírio os moleques que deixaram as casas e as senzalas nas fazendas para curtir o dia santo. A aguardente servida pelo mulato Orozimbo, de boa qualidade, fora extraída do alambique de pedra sabão trazido de Ouro Preto pelos tropeiros da região. Sorvida lentamente por um jovem e rude negro liberto, despertou nele ambições de artista, cantando e dançando de forma caricata, levando o povo às gargalhadas. Uma roda de coronéis confabulava sobre negócios e política. O pároco chegou à porta da igreja e sorriu vitorioso, uma jovem e bonita caiapó acompanhou-lhe os passos de certa distância, tímida e desencorajada pelos olhares dos fieis, que a tinham como companheira ilícita do padre italiano. Súbito, um negrinho esperto pousou os olhos em mim e notou que eu era diferente. Trajado de bermudas longas, camisa do Flamengo e óculos escuros, acabei por chamar a atenção de todos, que me rodearam curiosos. E passaram a me tocar. De repente, um empurrão, um puxão aqui outro ali e senti-me prisioneiro do passado. No presente a campainha sempre estridente de minha casa toca. Foi o bastante para que eu me despertasse escapando, renunciando a festa e voltando aos dias atuais. No portão aguardava-me um antigo pedinte, alcoólatra, querendo uns trocados. Era negro e um perfeito sósia do Orozimbo. Aquele, do século retratado.


Saavedra Fontes
saavedra_fontes@hotmail.com

domingo, 30 de dezembro de 2012

Tempo






TEMPO
(Arth Silva)

Já reparou em como o tempo passa e você nem vê? É como aqueles erros em filmes que quando te contam, você liberta um leve sorriso preso nos lábios e se pergunta: Como não vi isso antes?
Assim é o tempo, só nos damos conta dele quando já passou.
Quando você vê que seu Beatle preferido era o John e agora é o Paul. Quando você nota que a foto da sua carteira de identidade não se parece mais com você. (será falsificada?). Ou quando você destila a fatídica frase: No meu tempo era melhor.

Sempre digo que, se as fotos são o registro do corpo, a memória é a fotografia da alma. Tente relembrar um momento da sua vida. Lembrou? Reparou que você não se lembra necessariamente de uma imagem física, e  sim de um sentimento, de uma sensação? Há, você está novamente tentando se lembrar, só que agora fixando em detalhes. Não conseguiu, se conseguiu é a esquizofrenia se apoderando de você. Enfim. Acho que a lembrança é a única que enxerga realmente o tempo.

Quando crianças, pensávamos que o tempo era tão devagar, hoje ele parece mais rápido e amanha ele correrá mais que um keniano em prova de atletismo. A verdade é que quanto mais velhos, mais o tempo será breve. Para um cara de trocentos bilhões de anos, uma eternidade de evoluções químicas é realmente míseros seis dias e o dia de descanso deve estar durando até hoje. Mas se você ainda é daqueles que dizem que o tempo agora está passando rápido demais, entre em uma fila de banco que você irá mudar de ideia.
Olhando amigos e parentes, notamos que muitos mudaram completamente, outros parecem iguais, alguns se foram, outros ficaram.  Muitos que eram tão importantes para nossa vida, hoje estão mais sumidos que a mãe da Chiquinha. A maioria tatuou rugas sob os olhos, exceto aquela sua colega que você morre de inveja, mas não admite. No fim você se dá conta que não está sozinho. O tempo é contagioso, estamos todos envelhecendo. Somos feitos de tudo aquilo que sentimos, ouvimos, vemos, provamos e vivemos.

Para finalizar, certa vez li um sábio pensamento de um poeta conterrâneo (Eder Asa) que resume tudo o que eu disse aqui, no pensamento ele dizia: “Tempo logo existo”.
Reflita sobre isso enquanto ainda há tempo, antes que o ponteiro lhe empurre para o fim desse relógio.

Clique AQUI e leia mais texto insanamente lúcidos de Arth Silva

Crônicas do Luciano Vilela Teodoro


O cão está solto em Venda Nova 


*Luciano Vilela Teodoro

Ouvi rumores de que o capeta tinha aparecido num tal de vilarinho que era um bar que ficava nos subúrbios de Belo Horizonte e se recordo bem tinha uma pista de dança lá.

Era o ano de 1.990 eu estava na escola agrícolperto de Belo Horizonte, alguns colegas diziam que o capeta tinha bebida 53 cervejas das grandes e quando ele arrotou fedeu enxofre.

Até uma rádio FM de B.H. fêz uma musiquinha pro danadinho: "só quero dançar só mais um pouquinho lá no vilarinho não quero ser capeta não".

Ainda por cima inventaram um nome para ele: "Alex". Dizem que na hora dele tirar o chapéu deu para ver claramente seus chifres e deve ter grenado o tempo lá. Mais tarde descobriu-se que o "Alex" não passava de um alegre estudante norte-americano pensando por certo que o Halloween era por aqui ou se por acaso ele for o cão mesmo vocês não vão precisar de ir no inferno para ver coisa ruim, é só ir para os E.U.A.

Credo em Cruz, ainda bem que Deus é brasileiro.

Acadêmico da ALAMI - Cadeira 28

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma boa notícia: A "zona" vai acabar



Uma boa noticia: A "zona" vai fechar
 Wilter Furtado
wilter@com4.com.br

            Ultimamente, tem sido difícil selecionar boas noticias nos noticiários do Brasil e do mundo, principalmente quando se fala de cultura e educação. Os espaços sociais que serviam ao desenvolvimento da cultura e da formação do indivíduo estão cada vez menores, pelo fechamento de salas de cinema e teatros; pelo desleixo político com as bibliotecas e museus; pelos pífios investimentos em educação e em incentivos à cultura, às artes e à literatura, e; pela mercantilização e politização do ensino. Ocupando aqueles espaços aparecem outras formas de manifestações sem nenhum compromisso com a formação do indivíduo, com a cultura e com o desenvolvimento social. Ao contrário, são espaços ocupados pela mídia dominante para massificar o que chamam de entretenimento, extremamente nefasto à sociedade.
            Na última semana permeando o cenário consegui pinçar uma boa noticia que se for verdadeira, trará um grande ganho para nossa cultura e para o resgate do respeito às nossas famílias. Pelo o que li, em breve, será fechada uma das mais perigosas zonas anti-culturais e de alienação do nosso País, representada por alguns programas de televisão. Segundo a noticia, o reality show Big Brother acabará. Alias é brincadeira chamar aquilo de realidade, e como diria o gaúcho, chamar aquele bando de insanos de irmandade é escrachetar com a nossa inteligência. Só se for para encenar relações incestuosas como parte de nossa cultura. Denominada pelo programa de "a casa mais desejada e vigiada do Brasil" fico a imaginar o que aconteceria no seu interior se não possuísse tantas câmeras, estrategicamente colocadas para angariar audiência e faturar alto, e; sem nenhuma preocupação com o estrago que tudo que lá acontece, provoca nos lares brasileiros.
            Oxalá possamos assistir a ruína das paredes de uma casa cujo interior não retrata nada ou quase nada de nossa realidade a não ser, a inconsequência de um bando de desocupados, desestruturados e "filhinhos do sistema", buscando espaços nos camarins "globais" ou nas páginas da playboy; além dos carros e presentes que levam, pela "coragem" que demonstram para disputar um prêmio de R$ 1,5 milhão. Para acumular esse valor um trabalhador braçal que ganha um salário, gastaria um pouco mais de 200 anos trabalhando ininterruptamente. Logo, aquilo não representa realidade nenhuma.
            É de indignar. Enquanto os "heróis", "anjos" e "lideres" - personagens criadas pelo programa - vivem nababescamente, milhões de brasileiros vivem em barracos construídos nas favelas empinadas nas escoras dos morros; víveres agonizantes por falta de infra-estrutura, de saúde, de escolas; sem dignidade, à margem do emprego, da cultura e subjugados ao comando de marginais. Enquanto os "ídolos" criados pelas imbecilidades discursadas no programa, enroscam-se debaixo de edredons e de mantas riquíssimas e sobre lençóis de cetins, para a prática de bacanais e promiscuidades, milhões de brasileiros não tem sequer uma cama para dormir. Dá para imaginar o que R$ 1,5 milhão pode fazer para uma dessas comunidades?
            Faltam adjetivos para qualificar corretamente as (ir) realidades do programa e de seus participantes. Participando de festas lindas pelo luxo e dantescas pela essência, comendo caviar e bebendo champanhe francesa e whisk escocês, nus ou seminus à beira de piscinas ou nos incontáveis aposentos da casa, colocam diante dos olhos dos incautos, intermináveis seções de luxúria e pornografia, sempre regadas por um linguajar chulo e aviltante. Paradoxalmente não faltam ainda no dia a dia daqueles "herois" manifestações de intrigas, violência e de outros delitos sociais. 
            Pode ser que os adeptos de tudo aquilo digam que é falso moralismo criticar aquele programa, e que tudo se resolve com o controle remoto da televisão. Realmente, é óbvio que o programa se torna uma opção, para quem possuiu mesmo que o mínimo de formação cultural. O que se questiona é exatamente a pressão que ele exerce sobre os desaculturados, pela força substitutiva que a grande mídia exerce na socialização de tanta coisa imprestável, criando zonas perigosas de anti-cultura e deseducação.       

wilter@com4.com.br
                            

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

As lápides do Luciano

*Enio Ferreira

“Segundo a cultura judaica, as lápides não podem ser ostentosas, feitas  com pedras caras. Baseiam-se, para isso, no texto de Salomão, que diz: “O rico e o pobre se encontram; a todos o Senhor os fez” (Pv 22.2), cujo conteúdo remete à igualdade social diante da morte.


O hábito de construir lápides nos túmulos remonta aos dias dos patriarcas hebreus, quando Jacó erigiu uma lápide à sua mulher, Raquel: “E Jacó pôs uma coluna sobre a sua sepultura; esta é a coluna da sepultura de Raquel até o dia de hoje” (Gn 35.20).

A construção de uma lápide é importante, pois simboliza o respeito pelo morto. Tinha a função de evitar que o sacerdote, involuntariamente, mantivesse contato, ainda que por meio do túmulo, com o morto, visto que ao sacerdote era proibido tocá-lo. Além disso, serviria para identificar o local, facilitando sua visualização aos visitantes. Contudo, a decisão de construí-la é livre.”

*fonte:www.icp.com.br -

Muitas pessoas querem deixar uma frase derradeira gravada numa lápide. Acham que alguém em visita ao túmulo vincularia o morto à frase. Por isso imaginam uma frase que causasse um bom efeito naquele momento. Talvez a importância dessa frase está em pensar nela, pois, pensar nela é estar vivo. Interessante, não?

Numa entrevista Paulo Coelho disse que na sua lápide deixará   escrito:

“Eu morria enquanto vivia”

Lápides de pessoas famosas:


“Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino.”
 Escritor mineiro (1923-2004)

“O tempo não pára…” - Na lápide de Cazuza,   
Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro, RJ

“Assassinado por imbecis de ambos os sexos.”
 Nelson Rodrigues, cronista brasileiro

“Foi poeta, sonhou e amou na vida.”
- Álvares de Azevedo, escritor brasileiro

Bem sugestivas são as frases para lápides que o escritor tijucano Luciano Vilela Teodoro criou, numa crônica,  para aqueles que não querem deixar para os familiares redigi-la, pois, que talvez, acabem registrando algo que não seja digno da sua importante pessoa:

1 – Lápide de um macumbeiro:
“Esse é o meu último despacho”
2 – Lápide de um Espírita:
“Como será a minha próxima lápide?”
3 – Lápide de um Ateu:
“Morri! Simples assim e não vou ter saudade de mim”
4 – Lápide de um Católico:
Oh Deus! Antes o purgatório!
5 – Lápide de um protestante Kalvinista:
“Já estou lá! Afinal é tudo predestinado.”
6 – Lápide de um protestante Luterano:
“ Já eu! Não tenho tanta certeza”   
7 – Lápide de um Adventista:
“Vixe! Eu tinha que morrer logo num sábado, pobre coveiro” 
8 – Na minha lápide:
Essa é a minha última página, mas não o último livro. 
       * ********
 *Enio Ferreira
cronicatijucana@gmail.com

domingo, 16 de setembro de 2012

O beijo à queima roupa

*Arth Silva


Nos rascunhos da memória, vez ou outra deparo-me com lembranças que me transportam no tempo, são golpes de nostalgia que de tão fortes, parecem saudade.

Em um desses dias chuvosos entrou pela janela o cheiro dos meus 8 anos (talvez 7, o calendário da memória nunca é preciso), época em que pelas tardes da estação “Infância” eu driblava as pernas da idade.

Lá estava eu no colégio católico, vestido à moda da época, roupas e penteado cuidadosamente escolhidos pela mamãe. A professora com voz de bruxa de programa infantil riscava a lição no quadro negro, me ensinando coisas que provavelmente nunca colocarei em prática.

O porteiro assopra com força o apito, era o recreio; sim, o recreio da Escola Infantil Anjo da Guarda era anunciado pelo soar de um apito. Como eu ia dizendo, o “recreio” era um momento sagrado, onde eu colocava as brincadeiras em dia e iniciava meu ofício de inventar estórias (qualquer dia escrevo sobre isso).
Mas foi na fila do lanche que a infância tomou sua decisão.

Zeca era um menino que andava sempre suado, portador de um sorriso banguela, era o único negro da escola, isso lhe rendia apelidos, que relevava desenvolvendo bom humor.
Mas enfim, Zeca chegou de mansinho, como que querendo furar a fila, baixou o tom de voz e proferiu sua frase de impacto: ─ Ei Arthur... Ta sabendo? O Leandro beijou a Camila.

Narrou a cena com uma perfeição de cineasta: “Leandro, menino porradeiro e malicioso, de estatura maior que a maioria das crianças da escola, intimidava com sua panca de brigão e descolado. Na espreita, deixou Camila ficar sozinha no pátio do colégio, quando teve a chance não perdoou, agarrou-a violentamente pelo braço e, sem proferir uma única palavra lascou-lhe o beijo sem dó”. Zeca me mostrou até as pegadas rasgadas que ficaram tatuadas na face do barro.

Aquela historia entrou nos meus ouvidos como um alarme de incêndio, minha infância estava pronta pra ser queimada com aquela revelação. Não que eu sentisse ciúmes ou algo parecido, era mais que isso, até aquele dia um beijo na boca era um privilégio exclusivo dos adultos, ou dos artistas da TV. Uma criança se submetendo a isso era um crime capital que, se descoberto pelos funcionários da escola teria uma punição sumária. E não deu outra, além de banguela, Zeca era um tremendo fofoqueiro, a notícia se espalhou mais rápido que herpes em carnaval.

Rapidamente os pais de Camila e Leandro já estavam na escola; entraram com ar de tragédia.
O suor rútilo e frio já era visível na testa de Leandro. Os dois alunos incriminados foram chamados para a secretaria e de lá ouvimos apenas frações de gritos, choros e ameaças por uma coleção indefinida de minutos. Camilla que era uma menina extremamente linda e branca feito a candura de um anjo, manteve aquelas olheiras de choro por semanas.

O Incidente, embora praticado em dupla, sobrou para nós humildes virgens de boca.
A professora gritava com toda sala, sua veia carótida estava a segundos de se romper. Disparava intimidações de que, se o crime, o pecado como também citou, ocorresse novamente todos seriam punidos; ameaçava nosso maior tesouro: caso fosse repetido o incidente, ficaríamos até o fim do ano sem recreio.
Essa maligna advertência causou a castidade de alunos por vários anos (alguns até os 18, outros eternamente). Atrasando inconscientemente nossa entrada no mundo das paixões físicas.
Aquilo ficou carimbado em nossas mentes: o beijo é um crime e nós, como bons meninos, jamais o praticaríamos. Mal sabíamos que um dia nos tornaríamos meliantes, furtivos criminosos armados até os dentes disparando beijos a queima roupa.

Tal trauma me afastou dos grupinhos da puberdade, onde a brincadeira da garrafa era a lei e o primeiro beijo acontecia. Ao invés disso eu ia pro meu quarto começar meus primeiros escritos, exercendo uma espécie de celibato sem batina, mas o instinto animal é mais forte e, com o tempo, acaba rompendo a barreira do platônico e indo muito além do toque de lábios.

Por razão disso, ainda hoje, mesmo após ter vencido esse trauma, o cheiro de chuva faz o projetor da memória rodar aquele filme de quando beijar era crime, e nosso instinto delituoso apenas adormecia.


*Arth Silva é um exímio autor de cartas de amor que nunca serão enviadas. É leitor compulsivo e escritor vocacional. Dono de um estilo rápido, mas sem banalidades, ao reler suas próprias obras acabou influenciando a si mesmo. Como escritor nada lhe dá mais prazer do que escrever o espanto e o fascínio nos olhos das pessoas. Nas horas vagas, quando lhe falta mentiras, inventa a verdade... Aos 2 anos começou a falar; aos 3 aprendeu a mentir; teve meningite aos 7; foi assaltado aos 15; e catapora aos 18. Odeia ervilhas.

Leia mais textos tragicômicos de Arth Silva na página: http://sonhandoaderiva.blogspot.com.br/


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Crônicas da Adelaide









                           
AMIGOS... TESOURO QUE SE ACHA SEM TÊ-LO PERDIDO...


  Que sentimento forte é esse, que nos envolve, nos arrebata por inteiro?!
   Pessoas que se apoderam de nosso coração, sem nossa permissão, sem aviso prévio e que a princípio não se encontra explicação... Mas depois... Não deixamos e nem queremos que  se afaste...faz parte de nossa vida...
  É um afeto puro, desinteressado, despretensioso, transparente, cuja reciprocidade se estabelece de  forma gratuita, informal e fraterna. Muitos se indagam, como seria a vida sem amigos ?! Como alguém consegue viver sem esse coringa ?!
  São imprescindíveis, fabulosos, inigualáveis. Uma preciosidade, cujo valor não se consegue descrever.
   O amigo se antecipa a qualquer chamamento e tem sempre a solução para problemas cruciais. Comemora as vitórias do outro, como se fossem suas, com alegria e entusiasmo.
  Nunca se omite, e de forma  clara e objetiva, enfrenta desafios, sem alarde e sem cobranças...
  Sinceridade e fidelidade estão estampadas em suas ações, atitudes, gestos, parceria.
  Presente sempre nas “vacas gordas e nas vacas magras”. Perdoa faltas, deslizes, e procura de forma delicada entender e situação justificada. Não se aceita inveja ou disputa entre amigos, não existe concorrência...
  Intercede pelo outro até diante de Deus. Defende, briga, impõe seu ponto de vista.
  Para este nobre sentimento não existe meio termo, ele exige tomada de posição, sem divagações, sem dúvidas, sem desconfiança; não é admissível “ficar em cima do muro”.
  Ou se é amigo... ou não... Nem Deus suportou os mornos...
  Amigo é aquele anjo que Deus colocou na vida das pessoas a serviço do bem; retira as arestas, destaca as qualidades e se coloca sempre a disposição para servir...
  Não se pode nunca decepcionar, ferir, duvidar, mentir e principalmente trair um  amigo!!!
  A amizade é uma delicada flor que nasce sem ser plantada, mas que requer cuidados especiais, muita atenção, muito zelo, para não perecer ou se tornar frágil...
    Felizes aqueles que têm vários amigos...
    Há um ditado popular que diz: Amigos conta-se nos dedos da mão, e ainda sobra dedo !!!  será ?! Ser amigo de verdade é um ato de entrega, de doação, e de adoção...
     Ter amigos é muito bom, porém Ser considerado amigo de alguém é ótimo !!!
      Nossa homenagem aos queridos AMIGOS, neste Dia do Amigo.

                                                 Adelaide Pajuaba Nehme
                                                 Acadêmica da ALAMI
                                                 pajuaba@ituiutaba.uemg.br 
     


     21072009

sábado, 8 de setembro de 2012

Crônicas do Luciano Vilela Teodoro


Extra! Lançamento de livros do escritor Fulano no Rio Tijuco!

*Luciano Vilela Teodoro


Agora tá bom, tá fazendo menos calor. Eu havia preparado uma mesa de pão com mortadela e guaraná para os mendigos e analfabetos da minha cidade. Sentei numa mesa improvisada na ponte baixa do Tijuco. E comecei a por dedicatórias imaginárias nos meus livros que ninguém comprava e estavam a anos encalhados na livraria da cidade.  

Dedico esse livro a Netuno, se ele conseguir chegar ao mar. Dedico esse livro aos 15% de analfabetos de meu país. Dedico esse a mim mesmo por ter sobrevivido à literatura por treze anos.

Dedicou mais uns dez e os lançou no Rio Tijuco. O que eu estou preso por poluir o rio sim diz o guarda florestal. Mas meus livros são de papel biodegradável.
Então vai ser preso por vadiagem me pos no camburão e me despedi dos mendigos.

P.S.: Dedico esse livro às editoras, se ele conseguir chegar no quinto dos infernos.  

 *Luciano Vilela Teodoro
luciano.teodoro@yahoo.com 

Luciano Vilela Teodoro

terça-feira, 4 de setembro de 2012

CINECUBA

*Luciano Vilela Teodoro



   Uma sacra trindade: o sublime, sublimar cinema, cult europeu de Win Wenders, Ry Cooder que já brilhava com Canción Mixteca em Paris Texas do mesmo diretor e música cubana que são veradeiros clássicos e que se um dia cientistas quiserem descobrir o código da música latina, importantes partes desse código edstariam em Cuba e o seu habitat seria extinto "Buena Vista Social Club" e que graças a este arqueólogo da boa e autentica música que é Ry Cooder não desapareceu sem deixar vestígios. Em 1.994 estive em Cuba e fiquei imprensionado com a cordialidade e sobretudo criatividade do povo cubano que sob dois embargos o cubano (contra tudo que é americano) e o americano (contra tudo que é cubano) não perdeu nunca a sua grande capacidade criadora. Prova disso os carrões da década de cinquenta que funcionam até hoje graças aos mecánicos artesões de Cuba. E o que eles fizeram ao Jazz americano é dar mais ginga um verdadeiro torresmo Diet se é que isso é possível.Termino saudando a todos que como eu amam os filmes de Wim Wenders. Com um mojico drink cubano que leva o embriagante rum e a suave hortelã para celebrar a igualdade com que são mostradas as bandeiras americanas e cubanas e sem nenhum embargo.   

*Luciano Vilela Teodoro
luciano.teodoro@yahoo.com

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Crônicas de Diogo Vilela



Construindo uma ruína

*Diogo Vilela


Fazia sempre parte da sua rotina uma analise de como as relações entre as pessoas haviam evoluído. E evolução não significa exatamente progredir, prosperar. Pode-se também evoluir para algo que te faça desaparecer, evoluir para a extinção, por exemplo.
Nesse sentido, mesmo que sentido algum fizesse, esse pensamento lhe era recorrente. Ele que sempre prezava por uma atitude positiva no sentido de contribuição para a sua sociedade progressista, cheia de dedos e valores deturpados, ficava às vezes exausto com sua até antiquada postura. Seus momentos de exaustão em meio a buzinas, faixas de pedestre, filas e pilhas de folhas, o faziam correr. Correr para refletir, a cada quilômetro, sobre a constante moléstia que se instalara e que teimava em não cessar, não ceder. A exaustão dele não era, nem de longe, física. Era uma exaustão sináptica, psíquica, humoral - na dualidade que o termo permite, e ele se percebia então em um momento deveras importante do processo histórico evolutivo de sua espécie.
Como exemplificar isso? Simples: um ladrão está te perseguindo, vocês dois na corrida de interesses: o ladrão querendo se dar bem em cima de você e você foge na intenção de se proteger, claro. Você não sabe de onde vem esse fôlego e energia para a fuga, mas a necessidade te faz seguir. Dobre a esquina a toda velocidade e dê de cara com um beco: três paredes, e a única saída coloca você frente a frente com seu algoz. É seu beco evolutivo, ele grita te convidando a entrar.
Essa analogia, recorrente e latente, era uma parceira e perfazia um panorama rápido e de fácil digestão para aquela ansiedade que às vezes batia. Imagine então a angustia de estar preso. Esteja livre de seus arquétipos, nada de jaulas ou celas e imagine algo logaritmicamente ampliado onde você não enxergue os limites, mas eles existem e basta que você se movimente para que tome conhecimento de suas amarras. Ele se percebeu assim e isso lhe servia de consolo, ao menos.

*Diogo Vilela
deeogoo@gmail.com

sábado, 25 de agosto de 2012

DEUS É ELA


*José Moreira Filho

Tenho pensado que Deus não deveria ser Ele, mas Ela. Isso porque são tantos os atributos de Deus presentes na mãe que seria mais lógico pensar um Deus feminino.
Deus é amor, e o maior reflexo de amor na terra está na mãe. Deus é perdão, e a mãe defende o filho até quando criminoso. Deus corrige e educa, e a mãe desde o berço ensina o melhor caminho a seu filho. Deus não castiga, simplesmente permite a ocorrência de situações adversas a nossa vontade e que nosso conhecimento não consegue compreender, e a mãe vê o filho chorar, brigar por algo que não lhe é permitido, mas que não será para seu bem. Deus conhece seus filhos um a um, é o bom pastor, e a mãe na madrugada, no escuro, sabe qual filho está chegando em casa somente pelo jeito da entrada. Como já disse João Paulo I, o Papa-sorriso: “Deus é Pai e Mãe”. Posição reforçada por Erasmo Carlos em sua canção Feminino Coração de Deus: “O coração de Deus é feminino / É a força de toda criação / Capricho do destino, a mãe da invenção”.
E por que então nos referimos a Deus como masculino, somente como pai? Talvez a história da humanidade nos esclareça isso. A supervalorização do homem, do macho e do provedor em detrimento da valorização da mulher por séculos, com a aquiescência da igreja, vem justificar de certa forma, essa conduta. A historiografia universal foi conduzida sempre sob a ótica masculina. Em todos os fatos históricos a presença masculina é marcante. Noé construiu a Arca, Moisés conduziu seu povo, Os maiores filósofos clássicos foram Sócrates, Platão e Aristóteles, as Grandes Navegações foram feitas por homens.  As Revoluções Industrial e Francesa idem.
Assim sendo parece natural que Deus seja um Homem, mas seria no mínimo justo de nossa parte, evidenciar no papel de mãe todas as características divinas. Deveríamos ter a gratidão social de reconhecer na mãe a presença de Deus e respeitá-la como tal.
É hora, portanto, de repensar essa teologia androcêntrica e perceber mais um Deus da bondade, do amor, do perdão. Um Deus protetor e carinhoso. Um Deus amigo e cúmplice .
Um Deus mãe.

*José Moreira Filho
moreira@baciotti.com 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Onde estão nossos jovens?


*Prof. Msc Wilter Furtado

Procuro sempre, às vésperas de qualquer eleição, fazer uma análise pessoal e silenciosa sobre o futuro do nosso povo, a partir do perfil e dos discursos dos candidatos aos cargos disputados. Confesso que a cada eleição que passa essa minha preocupação aumenta, diante da degradação total e crescente que vem tomando conta do cenário sociopolítico do Brasil. Nossa sociedade chegou a níveis intoleráveis de corrupção, de falta de ética, de corporativismo, desumanização, irresponsabilidade, imoralidade, peleguismo, paternalismo, descaramento e de afronta à nossa inteligência.
            Minhas análises estão sempre frustrando as minhas esperanças. A cada dia me convenço mais que a culpa de tudo o que vem acontecendo conosco, e que em contraponto, a solução para tudo isso, está na educação. Tive o privilégio de fazer parte de uma geração de jovens, iluminados. De jovens que participavam ativamente dos movimentos sociais e políticos; que se inspiravam em ídolos e líderes - que aliás existiam - verdadeiramente engajados com as causas sociais e políticas, e; cuja educação, antes de pensar na formação profissional ancorava-se e respeitava os valores, crenças e princípios de formação do homem, enquanto indivíduo social. Uma educação em que a cultura e o conhecimento andavam juntos. Uma educação em que os jovens e as instituições, não negavam suas participações e responsabilidade em tudo e por todos.
            Infelizmente, hoje os discursos de toda sociedade são populistas, vazios, castradores, inconsistentes, aéticos, para não dizer horripilantes. Sem nenhuma inspiração filosófica, são apenas  manifestações de incompetência, acordos, conchavos e de jogos de interesses. As inspirações e aspirações partidárias não saem do seio das laudas dos Estatutos dos partidos, totalmente desfigurados pelo sistema político que por sinal, é construído pelo sistema educacional.
            Procuro suporte e esperança, nos jovens. Busco sinais, líderes e ídolos para o jovem, analisando o cenário educacional e sócio-profissional. Procuro vê-lo através de suas participações nas salas de aula e no trabalho e a ingerência que poderia exercer nos Grêmios das Escolas, nos Diretórios Acadêmicos e Empresas Júnior. Olhando mais para fora busco o jovem também nas Associações Comunitárias, Profissionais, Religiosas, na Mídia, nas Associações Culturais, no Teatro, na Música, nas Empresas, e também não o encontro, na forma esperada. Não o encontro porque estou buscando-o onde ele não está... Porque em todas as manifestações socioeconômicas e culturais, como berço, fonte e meios de sua formação política, profissional e cultural, faltam a educação e os exemplos. Afinal, onde estão nossos jovens aos quais, atribuo a responsabilidade por resgatar nossa educação política e cultura?
            Sem dúvida estão escondidos atrás da nuvem negra do nosso sistema educacional caótico. Estão a ouvir e aceitar os "filósofos modernos" de que nossa educação é excelente e que aumentamos o número de universidades - de qualidade desejável -; que temos milhões de alfabetizados, sem se preocupar que sejam alfabetizados funcionais - aqueles mal conseguem ler e escrever coisas do gênero "o boi baba", "a menina é bonita"; que não sabem voltar um troco a quem dá cinquenta reais para cobrar dezoito reais; não conseguem pensar, nem ressignificar nada. Mesmo assim, estão aprovados! São jovens felizes porque o discurso coaduna com a esdrúxula cultura que o ensino no Brasil tem que ser assim mesmo, sem qualidade, rápido e superficial, porque precisamos formar para o mercado de trabalho. Que mercado é esse que eu não consigo vê-lo fixo e concreto, se a dinâmica socioeconômica está a todo minuto mudando os serviços, os produtos, a mão-de-obra, os desejos e necessidades sociais? - São jovens condicionados a aceitar e não discutir por exemplo, o discurso de que surgiu no País uma nova classe média (40 milhões) que é a salvação do nosso povo e capitalismo, atribuindo o fato, às migalhas distribuídas pelos programas sociais; esquecendo-se de todos os fundamentos socioeconômicos que movimentam o mundo a cada instante. Ao contrário, o discurso ousa e abusa dos coitados desaculturados, e incautos, afirmando que as coisas não estão melhores ainda, por conta de um tal neo-liberalismo e de uma tal globalização.
            Estou certo que outro modelo de educação possa mostrar a nossos jovens que fazer política não é apenas participar da política partidária, e conduzi-los a uma participação mais efetiva e direta em todos os movimentos sociais. Mas precisam saber que são eles que poderão mudar tudo, inclusive a política partidária. Por isso, precisamos pensar e discutir mais, a educação nosso jovem. Precisamos conscientizar que infelizmente nossos jovens estão inseridos num meio sociocultural massificado e alienante, carente de ídolos e de líderes; um meio no qual não conseguimos localizar muitos indivíduos cujos discursos e ações, se aproximem dos fundamentos e das filosofias pregados por um Nelson Mandela, Mahatma Ghandi, John Kenedy, Juscelino Kubitschek, Madre Tereza, Che Guevara etc (poderia encher laudas). Sei que muitos não saberão do que e de quem estou falando. É porque na nossa educação e cultura estamos acostumados a perder muito tempo em discussões para explicar que o paternalismo, ainda justifica a esmagadora popularidade de uma "presidenta" que está "contenta" com tudo, desde que a educação oriente o povo para o consumo. Quero ver até quando essas situações se sustentarão!


*Wilter Furtado
wilter@com4.com.br

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sem exagero

*Enio Ferreira


"Não ver, não ouvir, não falar" – seis importantes palavras que constituem o antigo e sábio provérbio que nos leva à reflexão.

Rosa Maria, minha conselheira-mor, interfere: o provérbio em questão não sugere que eu preciso ser cego, surdo e mudo. Apenas para tomar tento com o que vejo, ouço e falo, em outras palavras – “tome conta da sua vida”.

O mundo será sempre o mesmo mundo sem o Raimundo, sem o Edmundo, mas sem o trelelê, sem o buraco da fechadura não sei não... Dizem que a Maledicência ocupa perto de 80% dos assuntos, fora isso, que utilidade teria o padre no confessionário; o advogado sem as trapaças. Psicanalista sem as culpas. Os escritores, os poetas, têm nas intrigas e nas maquinações, preciosos recheios para suas obras literárias... A fofoca é sempre um sucesso no rádio e na televisão. Seria interessante um mundo sem essa ardida pimenta, sem esse sal grosso? O politicamente correto levado ao exagero pode levantar bandeira para um mundo sem graça?

Ocasiões de futilidade, fofoca, compartilhamento de fatos de pouca relevância, podem ter alguma importância. Afinal, não sejamos perfeitos até as últimas conseqüências porque aí, já é não viver. Aos humanos é fundamental a sociabilidade e, o que não é fundamental, entende a reflectiva Rosa Maria, é o exagero. 


*Enio Ferreira
cronicatijucana@gmail.com 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Crônicas de Diogo Vilela







Contato divino





*Diogo Vilela
Vamos começar com a perspectiva de Deus sobre sua soberania legal, em entrevista exclusiva.
Em um belo dia, Deus estava cansado de inventar animais, plantas, aplicativos de “smartphone” e times de futebol. Ele queria inventar alguma coisa diferente, que mudaria realmente o premeditado futuro de seu mais prazeroso planeta (leia-se babilônia). O que lhe parecia era que, não importa o quanto ele se esforçasse, não havia para ele um sentido real em tudo aquilo que ele tomava como sendo a sua realidade, não havia nada que o confortasse na sua aceitação enquanto entidade suprema, o cara estava chateado com o fato de ser imbatível. Em tempos remotos ele inventara uma coisa interessante, pensou então: eu tenho que me afirmar supremamente em algo, para isso é preciso que me avaliem e me aprovem de alguma forma, e sendo positiva a avaliação (algo como um ENEM celestial), não devo ser contestado em hipótese alguma, por mais idiota que seja a minha vontade e reflexão moral. Deus chamou isso de “dogma”. Completada essa primeira parte, ele conseguiu colocar à sua disposição, por muitos e muitos anos, diversos camaradas loucos por uma “fanfarrice” para tomar conta desse negócio para ele. Com isso foi vivendo de renda e pode se entregar a outros afazeres onipotentes. Um desses afazeres era a propaganda! Ele inventou essa ferramenta no mesmo dia que a internet, mas por um extravio do correio divino essa última só chegou ao conhecimento mundano milhares de anos depois. Enfim, com a tal da propaganda ele fez-se materializar de diversas formas no cerne dos hologramas mentais: barbudo, careca, cabeludo, velho, gogo boy, almôndega com espaguete, e por aí vai. Como se isso não bastasse, já naquela época havia o efeito colateral (tendo em vista que adão já havia mordido a maçã, a desgraça estava feita) e ele foi sentido na forma de algumas interpretações pirateadas daquela supremacia harmoniosa, fina e nauseante, e uma das mais famosas era a do Deus com chifres. Algumas mentes, ao serem condicionadas a aceitarem e bolarem em suas mentes a imagem de um ser poderoso, invencível e tudo de bom, às vezes lhe adornavam com um chifre ao associá-lo a algum animal viril, de porte respeitoso: boi, bode, veado. Numa dessas, um senhor que estava passando por um momento no mínimo sensível de sua existência, imaginou um deus carrancudo e dotado de belos cornos. Ele disse aos rapazes que foram em sua casa, e gentilmente lhe arrancaram metade dos dentes da boca a fim de afirmarem sua fé, que ele aceitaria numa boa, obrigado. Revoltado, ele inventou o Diabo. Deus estava encrencado, no mínimo, e era só o início de uma saga milenar por entre sinapses nervosas e derrames cerebrais. Mesmo com a concorrência infernal, Deus estava gostando de sua epopéia que a ferro e fogo vinha sendo escrita no lombo de fiéis indignos de entrar em várias moradas. Bem, esse é só um ponto de vista.

*Diogo Vilela
deeogoo@gmail.com

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mitos tijucanos


  *Whisner Fraga - ALAMI                         

          As prostitutas ou meretrizes ou hetairas ou cortesãs ou rameiras ou quengas ou, mais modernamente, garotas de programa, sempre colonizaram o imaginário dos homens, em todas as épocas e em todos os lugares. O sexo, principalmente nas cidades mineiras interioranas, é um tabu, o que serve apenas para avivar nossa curiosidade com relação ao assunto. Tratado assim, desde criança, aprendemos a relacionar sexualidade com proibição, o que pode ser bem ruim.
          Isso tudo para chegar a um boato: a existência de um prostíbulo em Ituiutaba. Antes de seguir, gostaria de deixar claro que entendo toda a questão da exploração sexual, do feminismo e as demais nuances relacionadas ao uso do corpo como forma de negócio. A questão é que estou escrevendo uma crônica e tento simplesmente relatar fatos, adicionando a eles uma interpretação rasteira de minha visão de mundo e uma mentira ou outra. Esclarecido isto, defendo que a voz do povo é a voz de Deus. Se comentam por aí que há um lupanar engastado em alguma casa afastada da minha cidade natal, é porque deve ser verdade. E fofocam muito sobre isso.
          Fato é que desde minha adolescência sempre tive medo dessas mulheres que extraem lucro do próprio corpo. Fui educado para ser um cavalheiro e, de acordo com minhas leituras e dogmas, isso engloba o prazer feminino também. Como satisfazer uma dama de bordel era questão sem resposta, que cotidianamente eu me impunha. De modo que corria a notícia da existência de uma casa gerenciada por um tal de Jorginho, um negociante homossexual, cujo nome e ações saracoteavam de boca em boca.
          Não verifiquei por mim a existência de tal empresa, primeiro porque a idade me proibia, segundo porque havia a questão do temor. Mas, sendo ou não verdade, o certo é que ouvi tanta maledicência sobre randevus tijucanos, que, de certa forma, isso me ajudou na construção de minha base moral, baseada na aceitação e na crítica a uma cultura que fazia parte do meu tempo. Foram coronéis, casados, pais, que sustentavam putas, foram xerifes que exigiam exclusividade, foram menores presos com a boca na botija, foram moças lindas, encantadoras, desgarradas da família que adotaram a libidinosidade como meio de vida. Mitos inculcados em minhas confusões.
            De maneira que esta semana, lendo um jornal do início do mês, fiquei sabendo da morte trágica deste mesmo Jorginho, alvo dos boatos citados no terceiro parágrafo. Para mim, todo falecimento é um acaso muito triste e me senti chateado com a notícia do assassinato. Lembro-me, e novamente ressalto aqui que não sei se o evento aconteceu de fato ou se faz parte da mitologia, de certa vez que Jorginho saiu com uma fantasia espalhafatosa pelas ruas ituiutabanas, durante um carnaval. Fantasia caríssima, que fazia frente àquelas usadas pelas musas do carnaval carioca. Eu não vi, portanto não posso dizer se foi acontecimento verídico. Tantos e tantos rumores sobre ele que minha cabeça se perde agora.
            O homossexualismo ainda não foi bem assimilado em nossa sociedade, de forma que um preconceito camuflado, silencioso, ainda impera na comunidade. Jorginho certamente foi vítima do “mito da igualdade sexual”, que afirma haver uma compreensão geral que todos somos iguais. Como nos lembrou Huxley, o problema é que “alguns são mais iguais do que outros”.
            De todo modo, esta crônica é somente uma homenagem a essa figura que fez parte da história de Ituiutaba, não só pela sua atuação política, que sobre ela nada sei, mas talvez principalmente por não ter se contentado em ser um observador da vida, mas alguém que, bem ou mal, certo ou errado, preencheu, com sua coragem, páginas das lendas de minha cidade, que sem sua presença seriam muito mais tediosas.


* Whisner Fraga é escritor. 
Contato: wf@whisnerfraga.com.br

sábado, 23 de junho de 2012

Espaço criado para os escritores da terra do conto - Ituiutaba - MG - divulgarem as suas crônicas.
 
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